quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Jar Of Memories - Capítulo 11: Mystery

                Assim que cheguei e estacionei o carro, não avistei movimentação nenhuma. Aquilo era um tanto assustador. Só podia ouvir o vento carregando as folhas e um céu nublado, algo bem tenebroso.

              Olhei a porta e estava fechada. Ninguém havia chegado ainda? Como isso poderia ser aceitável? Comecei a contar até dez quando me lembrei do real motivo de ainda estar viva. Procurei pela chave dentro da bolsa e quando abri a porta, as luzes foram acesas e todos gritaram:

                -SURPRESA!


Uau! Por esta, eu não esperava.

                -É muito bom de ter de volta Srta. Hünderberg. Como sentimos pelo que aconteceu! Achamos que você nos deixaria para sempre naquele acidente! Como ficaríamos sem você por aqui? Ella me abraçava fortemente, o que me incomodava bastante. Tentei me controlar para não ser grosseira. Eu tinha que mudar alguns conceitos. Tratar melhor as pessoas, respeitar o espaço de cada uma e a personalidade também, embora isso me custasse um pouco de tempo para digerir tudo.

                James trazia um pequeno bolo enquanto Harry segurava cartazes, feitos por ele mesmo, me desejando “boas vindas”. Grace também estava feliz e sugeriu que eu cortasse o bolo. Tivemos um momento interativo, o que me deixou muito satisfeita. Acho que eu nunca havia permitido que algo assim acontecesse. Mas dessa vez seria diferente. Eu seria mais flexível e menos malvada. Eu nunca fui assim e meus pais nunca queriam que eu fosse desta forma. Não havia razões para agir daquele jeito.
                Conversamos bastante e logo percebi que tínhamos muito trabalho pela frente. Dei a ordem de voltarmos ao trabalho, mas antes, conversei com Harry e Grace sobre a minha péssima atuação como chefe.

                - Minnermann e Styles eu queria dizer que sinto muito pelo modo como tratei vocês. Fui injusta e cruel, principalmente com você, Harry. Gostaria de pedir desculpas e como vocês sabem, são muito bem-vindos aqui.

Eles se entreolharam e sorriram de volta, assim como eu. Surpreendentemente, todos os presentes vieram ao meu encontro e me abraçaram, deixando-me sem reação. Juntei-me a eles e suspirei. Não podia chorar naquele momento. Entretanto, a verdade é que, estou vulnerável. Bastante. Todos os sentimentos repreendidos vinham à tona. É como se eu tivesse me livrado daquela postura rígida, daquela máscara. Eu estava muito sensível a tudo. E lógico que isso foi perceptível.





                -Eu entendo você Srta. Hünderberg. É normal se sentir assim. Você passou por momentos muito delicados. Pode se abrir conosco. Nós sabemos por tudo o que você passou. Harry falava aquilo com tanta confiança e sinceridade que me confortou. Eu os abracei  e disse entre soluços:

                -De hoje em diante, não quero que me chamem mais de Srta. Hünderberg. Podem me chamar de Amber, somente Amber. E quero repartir algumas responsabilidades com vocês. É claro que isso não vai acontecer agora, mas quero que saibam por mim, hoje. A partir das próximas semanas, vocês terão acessos a assuntos da empresa e poderão solucionar problemas por vocês próprios, sem a minha autorização. Isso seria ótimo, não seria?

                -Seria, MUITO! Disseram os dois, em uníssono.

Eles me agradeceram imensamente e quando Grace deixou a sala, Harry se aproximou de mim e me perguntou sobre o planejamento da campanha que eu rejeitei a um mês atrás.

                -Seria muito se eu pedisse para rever aquele planejamento da campanha? Eu sei que não era tarefa minha, mas eu achei a parte da criação tão sem graça! Elaboraríamos um VT incrível! Nós não a desapontaremos Amber! Eu prometo! Disse ele, unindo as mãos em tom esperançoso, como se estivesse implorando.

                -Acho que podemos pensar no assunto, não é? Eu não me lembro o porquê de ter feito aquilo, mas, lamento muito. Redija o seu texto novamente e veremos o que podemos fazer, certo? Disse eu, sorrindo.

Ele deu uma risada de alegria, beijou o meu rosto e ajeitou os óculos. Nossa, eu não esperava por isso, muito menos, pela reação do meu corpo que entrou em estado de erupção. O que estava acontecendo comigo? Apaixonada eu não posso estar, não mesmo!

Os nossos olhares se encontraram e de repente, ele ficou sério, admirando o meu rosto, segurando o meu queixo.
                -Eu sabia que você não era daquele jeito. Eu tinha esperanças que você mudasse e foi exatamente o que aconteceu. Só Deus sabe o quanto eu agradecerei por ele, hoje à noite.




Eu continuei o observando assustada. Ele sorriu novamente, soltou meu queixo e piscou o olho, saindo da sala. Céus, o que foi aquilo? Esse garoto está dando em cima de mim, que tenho idade para ser a tia ou a mãe dele? Não, isso é uma pegadinha, só pode.

                Eu olhei em volta, tentando trazer a minha concentração de volta. E vi o envelope com a foto, lembrando – me de tudo o que eu deveria fazer. Foi quando Grace bateu à porta.

                -Entre, por favor.

                -Olá Amber! Estou aqui com duas propostas para a produção do VT de dois clientes, muito interessados em nossos serviços. Eu as imprimi e trouxe para que pudesse vê-las com atenção.

                -Ok, pode deixar aí em cima. – Disse eu, distraída, olhando para a foto.

Grace já se retirava quando a interrompi.

                -Grace, você sabe o que aconteceu com meus pais, não sabe? Indaguei, pensativa.

                -Sua tia Zoe me contou sobre o acidente, mas foi só. Ela não entrou em detalhes.

                -Meus pais tiveram uma discussão porque meu pai tinha um relacionamento paralelo ao casamento. A “intrusa” era uma estagiária que trabalhava aqui, há alguns anos. Eu queria saber se você conhece algo sobre esse assunto. Digo isso, porque você é a mais antiga de todas as funcionárias. Pode saber de alguma coisa que tenham escondido de mim. Enfim, você sabe que...

                -Não sei de nada Amber. Não posso te ajudar! Disparou automaticamente.

                -Tudo bem, Grace. Pode ir. Eu nem sei, porque perguntei isso. Desculpe.

Ela assentiu e saiu da sala estranhamente. É como se soubesse de alguma coisa e não quisesse me contar. Aquilo me instigou. E agora sim, Grace era uma das minhas respostas. Eu só precisava descobrir uma forma de conseguir a informação. Hora de arquitetar meus planos. Dessa vez, do jeito certo.
  

Jar Of Memories - Capítulo 10: Something To Find Out

             
Créditos: www.123rf.com

                     Assim que tive alta do hospital, fui levada para a casa, aos cuidados da tia Zoe, pois, ela não queria me deixar só depois do que aconteceu. Grace e Harry concordaram plenamente e prometeram que dariam todo o suporte necessário mesmo sem minha vontade. Eu não entendia o porquê de tanta preocupação. Foi um grave acidente eu sei, mas isso acontece com muitas pessoas, todos os dias. Eu já estava melhor e me viraria bem sozinha, mas, no início, não foi fácil convencer minha tia..

                Na primeira noite, assistimos TV e acabei adormecendo no sofá de tanto tédio. E tive um sonho incrível.

Estereótipo do campo florido do sonho de Amber


                Eu acordava em um campo florido, ensolarado e lindo. Podia admirar a beleza das flores e a fauna presente. Os passarinhos ecoavam uma bela harmonia, o que me deixou fascinada. Levantei-me e fui andando em volta na tentativa de encontrar alguém. Alguns passos à frente, eu via pessoas reunidas em um círculo como se estivessem meditando. Eu me aproximo e ouço uma voz familiar:

                -Amber, minha filha! Como é bom ter ver novamente!


Girei os calcanhares e vi minha mãe. Ela estava linda, não havia arranhões, suas roupas não estavam banhadas de sangue e ela parecia serena e amigável. A emoção tomou conta de mim. Fui ao seu encontro e a abracei forte. Isso foi inacreditável porque pude sentir seu toque. Aquilo era tão real, que me deixava confusa.

Créditos: www.simplesassim.net.br


                -Mãe, como eu sinto sua falta! Por que você teve que ir? Por que me abandonou? Você e o papai, de uma só vez? Isso não é justo. Eu sinto muita saudade, um vazio no meu coração que nunca será preenchido. Eu estava entre soluços, com o rosto banhado pelas lágrimas.

Ela puxou o meu queixo e sorriu dizendo:

                -Querida, infelizmente, certas coisas precisam acontecer. Nosso destino está escrito em nossas ações. Naquela noite, chovia muito e eu estava discutindo com seu pai sobre o nosso futuro e o meu comportamento diante de tudo o que acontecia. Nosso casamento estava uma bagunça e não queria te contar, pois você jamais entenderia. A vida dos adultos é complicada. Nosso carro foi atingido por uma grande carreta que vinha no sentido contrário. Ela despedaçou nosso carro que, pegou fogo em seguida, e morremos presos às ferragens. Sua tia nunca te contou porque não queria que você sofresse pensando neste trágico fim. Ela olhava para mim com compaixão, suas mãos eram macias como uma seda.

                -Mãe, eu quase tive o mesmo fim, só não entendo porque estou de volta. Eu deveria ter morrido também, assim ficaria próximo a vocês. Eu não sofreria mais. Seria feliz eternamente em seus braços, disse, abraçando-a mais uma vez.

Ela me segurou, fitou meus olhos, seriamente. Quando fazia isso, significava que estava pedindo minha atenção. Eu retribuí o olhar, aguardando a sua resposta.

                -Querida, esta foi uma peça pregada pelo destino. Ainda não é a sua hora. Se você está neste outro mundo, é porque ainda tem algo a fazer. E você sabe que precisa de calma e sabedoria. Mas, isso você tem. Aguarde, pois, coisas maravilhosas acontecerão. E quando for a hora, acredite em mim, você não vai querer se despedir destas pessoas. Ela me beijou na testa e me abraçou. Depois disse que tinha que ir. Neste momento, eu acordei assustada. O dia havia amanhecido e eu tinha que retornar à agência. Eu me levantei e vi tia Zoe preparando o café da manhã. Limpei minhas lágrimas quando notei que ela estava se aproximando.

                -Que bom que levantou. Detesto ter que te acordar. Você é uma pessoa tão ocupada. Suspirou ela, olhando para mim.

Olhei para ela e lembrei-me do que minha mãe havia dito. Larguei as cobertas, sentei-me no sofá e comecei a respirar fundo entre soluços.

                -Tia, disse eu, sentindo meus olhos marejarem. – Essa noite eu tive um sonho estranho. Sonhei com a mamãe. Parecia tão real, sabe? Ela me abraçava com carinho e me disse o porquê dela ter partido. Disse também que, você sabia do acidente, mas, não queria me contar em respeito à minha dor. Eu era nova e não entenderia algumas coisas, como a discussão entre eles, minutos antes da batida. Sobre o que eles discutiam? Eles pensavam em se divorciar? Você era irmã dela, você sabia de alguma coisa. Por que não contar agora? Estou aqui e vou ouvir. Segurei as mãos da minha tia, esperando uma resposta positiva, mas ela balançou a cabeça.

                -Por favor, Amber, esqueça. É muita loucura. Ela nunca disse nada para mim, eu juro. Se soubesse, já teria te contado. Ela quer que eu invente algo para justificar a discussão dos seus pais. Só sei que eles estavam se divorciando por causa de uma traição. Não sei quem era a amante de seu pai, mas ela não teve nenhuma ligação com o acidente. É só o que sei. Ela se levantou e cruzou os braços. – Acho que você deve se arrumar para ir trabalhar.

                -Qual era o nome dela? Como ela era? MINHA MÃE SOFREU MUITO POR CAUSA DESTA CRETINA NÃO FOI? Gritava eu, tentando conseguir alguma explicação.

                -Eu não sei, Amber! Não sei! Eles nunca me contaram sobre ela. Tratava-se de uma estagiária do escritório do seu pai. Quando sua mãe soube, resolveu tirar satisfações com seu pai, só que não na minha frente. Pediu que eu ficasse com você, enquanto eles saíram para jantar. E foi aí que o desastre ocorreu. Fiquei sabendo algumas horas depois e entrei em choque. Por favor, não me faça trazer este assunto de volta. É tão amargo, triste e repulsivo.

                -Quem é a filha dela? Onde mora? Eu irei encontrá-la! Exclamei eu, andando atrás de Zoe, que tentava se livrar do assunto.

                -Bom, isso eu não sei, mas tenho uma foto da estagiária. Ela foi até o seu quarto e trouxe um envelope. – Isto é tudo o que eu tenho Amber. Não faço idéia de onde ela esteja agora. Entretanto, no dia do enterro, eu a vi de longe com uma menina. Logo, concluí que era a sua filha. Tentei me aproximar, mas ela se afastou. Desde então, nunca mais a vi. Seu paradeiro é desconhecido. É tudo, Amber. Agora sugiro que você se arrume para o trabalho.

                Subi as escadas rapidamente, tomei um banho, troquei de roupa, tomei um rápido café e antes de me despedir de Zoe disse:

                -Não me espere para o jantar. Vou pesquisar sobre esta mulher. Preciso saber o que minha mãe não quis me contar. Eu apontava para a foto, antes de guardar na bolsa. Zoe me olhou confusa e disse alguma coisa, mas eu não a ouvi.
Entrei no carro e respirei fundo. Eu precisava ser cautelosa neste momento. Dei partida e segui rumo ao meu retorno na agência.

Jar Of Memories - Capítulo 9: Just In Time

               
Créditos: fashion.me

                -O que eu tenho que fazer? Perguntei, ansiosa.

                -Não muito. Mas não sei se aceitará. Disse a voz, em tom grave.

Acho que a voz estava falando sobre mudar as minhas atitudes. Mudar quem eu era. Apagar aquela personalidade de mulher altiva, mandona e ríspida com as pessoas, dando lugar a uma pessoa mais flexível, diplomática e serena.

                -Se for sobre mudar quem eu, saiba que isso não acontecer. É impossível mudar quem eu sou. Minha voz imperava e eu estava decidida.

                -Não, não é Amber. Sempre podemos ser melhores do que somos. Mas VOCÊ PRECISA ACEITAR isso, caso contrário, não adiantará de nada. O tom da voz era categórico e eu senti um desconforto.

                -Bom, e se eu não aceitar nada disso?

                -Sua tia entrará em uma tristeza profunda e a sua amiga Grace se sentirá culpada pelo resto da vida. Isso sem contar no fim trágico da sua agência. Quer dar uma olhada no futuro?

O medo tomou conta de mim, gelando minha espinha. Minha agência na miséria? Minha tia Zoe deprimida e Grace culpada pelo resto da sua vida? Isso não seria bom. Nada bom. Além do mais, eu jamais descansaria em paz sabendo disso. Acho que dessa vez eu teria que ceder.

                -Tudo bem. Faremos do seu jeito. Eu vou voltar. Mas preciso da sua ajuda.

                -Eu não te ajudarei porque você sabe o caminho a ser seguido. Sabe exatamente o que fazer. Só precisa fazê-lo Srta. Não prolongaremos essa conversa, pois, não há necessidade. Está preparada? Essa era sua última pergunta.

                -Eu me lembrarei dessa conversa? Como explicarei para as pessoas sobre isso? Eu estava ansiosa. Ainda tinha muitas dúvidas.

                -Você não se lembrará de nada. E não se preocupe. Tudo será explicado. Você não precisará dizer uma palavra sequer. Agora, despeço-me. Quando sua missão estiver perto do fim, você saberá por meio de outros elementos que se agregarão em seu caminho. Espero que cumpra isso, tente ser feliz, amar aos outros e a si mesma, Amber Hünderberg. Adeus.

Abaixei a cabeça e senti a rajada de vento mais uma vez. Estava sendo arrastada novamente. Dessa vez, a força foi tão intensa que desmaiei, se é que isso seja possível. Abri os olhos e meu corpo doía muito. Eu não conseguia mover absolutamente nada. Minha cabeça estava explodindo de dor. Eu estava me sentindo péssima. Ouvi uma voz serena e feminina.

Estereótipo da personagem Sarah Witman
Créditos: www.hgi.com.br

                -Bom dia, Srta. Hünderberg! Meu nome é Sarah Whitman e cuidarei de você enquanto estiver aqui. Qualquer problema, somente aperte esse botão e viremos atendê-la.

                -Cadê a minha tia Zoe? Ela ainda está aqui Sarah? Perguntei com a voz fraca, ainda em dor.

                -Sim, ela está lá fora. Estava muito nervosa e recomendamos que fosse para casa, mas ela não quis. Disse que ficaria aqui até que você acordasse. Ela preparava a medicação, enquanto conversava comigo.

                - Como eu sobrevivi? Eu não estava morta? Eu não sentia mais nada. Como conseguiram me salvar? A ansiedade por respostas me deixava nervosa.

                -Acalme-se. Não queremos que você se estresse. Apenas lhe digo que sofreu um grave acidente e passou por uma cirurgia delicada. Seu baço foi retirado e parte de seu intestino sofreu uma modificação. Mas você vai sobreviver. Se quiser conversar com o médico que cuida de você, podemos fazer isso depois. MAS SÓ DEPOIS. Ela havia sido objetiva nesse ponto.

                -Quero ver minha tia. Tem mais alguém lá fora?

                -Sim. Duas pessoas que dizem conhecer você. Estavam muito preocupados, pois, achavam que você havia morrido na cirurgia. Que bom que isso não aconteceu, não é mesmo? Nesse momento, ela sorriu e já estava se retirando.

                Antes que eu pudesse pensar no que dizer para Zoe e os demais, eles chegaram rapidamente e se emocionaram ao me verem ali. Eu não estava bem, mas estava viva. Grace segurava a minha mão. Para minha surpresa, Styles aparecia por trás da minha Zoe em um sorriso tímido, mas, verdadeiro.

                -Amber, como você está? Está sentindo dor? Perguntou minha tia, demonstrando preocupação.
                -Estou dolorida tia, mas isso faz parte. Disseram que eu sofri um grave acidente e que sobrevivi como que em um milagre, não é?

                -Sim. Você estava irreconhecível. Eu chorava tanto, tanto. Achei que tivesse te perdido. Essa seria uma dor que eu jamais suportaria, disse ela, enxugando as lágrimas.

                -Sua tia me ligou e eu vi no noticiário. Quando soube que você estava à beira da morte, entrei em choque e me desesperei. Eu não parava de pensar nas coisas que havia dito a você. Como pude ter sido tão cretina? Mil perdões, Srta. Hünderberg. Grace ainda segurava a minha mão, fitando-me emocionada.

                -Quando eu sair daqui, faremos algumas mudanças. Eu quero vocês de volta na minha agência, certo? Disse eu, olhando para Grace e Harry.

Eles se entreolharam e sorriram para mim. Harry pediu licença a Grace e se aproximou de mim. Ele estava sem os óculos e pude perceber que seus olhos estavam cansados e inchados, mas, ainda refletiam toda a beleza.  Uma parte daquelas emoções foi causada por mim. Eu o olhei, com pena, por ter sido tão insensível. E antes que pudesse pedir desculpas, ele beijou minha testa e disse:

                -Muito obrigado por me dar essa chance. Eu sei que esse não é o momento, mas estou muito feliz por voltar ao time. Eu rezei muito para que você não morresse. Nós precisamos muito de você, muito mesmo.

Aquilo me emocionou. Segurei as lágrimas e chamei todos para um abraço coletivo. Eu nunca havia feito isso, mas sabia que, naquele momento era o que eu mais precisava.



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Jar Of Memories - Capítulo 8: Sorry

               

Quarto branco
Créditos: pt.dreamtime.com


                Eu fui abrindo os olhos lentamente, olhei para os lados e não encontrei nada. Estava em um quarto totalmente branco, sem janelas nem nada do tipo, percebi que estava deitada, mas não havia nenhuma cama, maca ou qualquer outra coisa que me sustentasse ali. Era como se eu estivesse flutuando. Muito estranho. Fechei meus olhos novamente e respirei fundo, na tentativa de acordar ou começar a sonhar com outra coisa, mas não rolou. De repente, ouço uma voz ao meu lado:

                -Como está se sentindo Srta. Amber Hünderberg? A voz era grave e abri os olhos imediatamente e não havia ninguém por perto. Aquilo era perturbador.

                -O que está acontecendo? Onde eu estou? Eu morri não foi? - Disparei uma pergunta atrás da outra, olhando para os lados, esperando por respostas.

                -Amber, peço que tenha calma. Quanto menos souber agora, melhor. São muitas informações e eu não poderei responder todas as perguntas. O tempo fará isso e você compreenderá.

                -Afinal, quem é você, ora? E por que estou aqui?

                -Amber, te ajudarei a entender algumas dúvidas. Eu não tenho um nome definido. Alguns me chamam de Deus, mas isso não é uma verdade absoluta. Eu posso ser o que você quiser que eu seja.

                -O quê? Ok, Ok. Você faz o que? E o que eu estou fazendo aqui?

                -Amber, levante-se e abra a porta. E eu lhe explicarei o resto.

                -Que porta? Não há porta nenhuma aqui! - Disparei eu, colocando as mãos na cabeça.

                -Amber, concentre-se. Caso contrário, não conseguirá compreender nada. E ficará aqui para sempre.

Eu suspirei e me levantei. Olhei para frente e me concentrei. Logo, vi uma porta. Eu a abri e um forte vento me puxou. Quase fui derrubada. Olhei para baixo e parecia que estava voando, suspensa no ar. Era surreal. Olhei para mim mesma e não encontrei meu corpo. Entrei em pavor. Eu via, mas, não conseguia ser vista. Insano? Muito, muito mesmo. Fechei os olhos e ouvi a voz novamente:

                -Ouça, Amber com muita atenção. Aquilo que você verá daqui a alguns segundos é real. Você estará assistindo a sua reanimação. Sofreu um grave acidente e está em uma tênue linha entre a vida comum e a espiritual. Ninguém te ouvirá, você está em outra dimensão, portanto, não adianta gritar ou tentar tocar nas pessoas, elas não sentirão nada, pois não estão em estado adequado para isso. Tente-se acalmar. A situação é delicada e precisa ser forte.

                Assim que ouvir a voz, fui jogada para o local do acidente. Passava pelas pessoas e via muitas delas em estado de choque. Algumas delas se abraçavam, incluindo a tia Zoe. Quando a vi, meus olhos marejaram. Como eu queria abraçá-la e dizer a ela o quanto eu sentia por ter sido uma sombrinha tão ausente e fria. Os bombeiros formavam um cordão de isolamento. Fui me aproximando aos poucos e pude ver a cena mais chocante de toda a minha vida. Eu estava presa pelas ferragens retorcidas do carro e do caminhão. Os bombeiros serravam rapidamente com a esperança de me tirar com vida. Logo, eles o fizeram. Nesse momento, minha tia se aproximou aos berros gritando o meu nome e o quanto me amava e que não queria que eu morresse. Ela estava em estado de choque e foi levada pelos bombeiros para outra ambulância. Fui colocada com cuidado na maca. Logo, estava usando uma máscara de oxigênio e minha saturação estava baixa, muito baixa. Eu estava praticamente morta. Os batimentos eram lentos e a pressão baixava a cada segundo. Eu havia perdido uma quantidade absurda de sangue. Alguns paramédicos falavam em traumatismo craniano, mas ninguém afirmou com certeza. Fui colocada dentro da ambulância e segui para o hospital com dois paramédicos e dois médicos que me assistiam o tempo todo. Verificavam todos os meus sinais e já tentavam a reanimação, pois, havia feito uma parada cardíaca e respiratória.  Conseguiram me manter meus batimentos por alguns segundos, mas logo fiz outra parada e assim acontecia, sucessivamente. Eu estava em estado de choque. Nunca pensei que fosse ver meu próprio fim. Era algo tão triste. Pensava na tia Zoe, que gritava ao ver minha maca passando para o centro cirúrgico rapidamente. Ela tentava se desvencilhar das pessoas que chegavam aos poucos, procurando por noticias. Todos os vizinhos estavam ali. E por incrível que pareça, alguns choravam desconsolados. Lauren Whitaker era uma delas. Ela abraçava minha tia e dizia que tudo daria certo. Suas lágrimas escorriam, molhando seu suéter de cashmere. Por que aquelas pessoas mereciam sofrer por minha causa? Aquilo não era justo. Elas tinham sido pessoas boas. Eu era a malvada e ingrata e são elas que sentem a dor da perda? Da minha perda? Não. Eu fechei os olhos e ouvi a voz.

Créditos: www.katu.com

                -Você quer continuar com isso ou quer sair daqui? Ainda precisamos conversar.

                -Tire-me daqui, por favor. É muito sofrimento. Eu era má, mas o sadismo estava me destruindo. Para onde vamos? O que conversaremos?

                -Nossa conversa será longa, Srta. Hünderberg. Espero que possa compreender cada palavra que disser e que cumpra nosso acordo.

                -Sim, estou pronta. Vamos.

Senti mais uma rajada de vento pelo meu “corpo”. Estava de volta a sala branca. Suspirei e comecei  a chorar pensando naquela cena, naquelas pessoas, nos sofrimento. Os seres humanos bons sempre são os que mais sofrem. Isso era desolador.

                -Aquilo que você viu é real. Você está em uma cirurgia de emergência, pois, dilacerou uma parte de seu intestino e perfurou o baço. Os médicos estão tentando consertar o estrago.

                -Aquelas pessoas não poderiam sofrer daquela forma! Minha tia está sozinha agora, eu era a única sobrinha viva. Como você acha que ela vai levar a vida agora? Ela não irá suportar! Eu olhava para baixo, triste.

                -Bom, se eu te disser que terá uma chance de consertar tudo isso, você aceitaria?

                -Como assim? Perguntei, confusa.

                -Digamos que eu posso fazer alguns ajustes. Você voltaria à vida e tentaria reparar os erros do passado.

                -Que erros? Eu não cometi nenhum erro! Gritei.

                -Tem certeza? E aquelas pessoas que trabalham na sua agência? Por que elas são tratadas daquela forma? Você pode ser a dona daquela agência, mas não é do mundo. Por qual razão você agia assim? O que se passa dentro de ti, Amber?

Eu fiquei pensativa por alguns minutos e logo encontrei uma justificativa.

                -Bom,  essa é a forma de me defender. Não quero que se apeguem a uma personalidade carismática, não quero perder o respeito. Tenho que ser durona, caso contrário, jamais, serei reconhecida. Todos sabem o modo como trabalho. Explico para todos que assinam o contrato. Se não quiser, caia fora. Minhas palavras foram duras. Falei a verdade.

                -Se defender de que? De pessoas que se importam e que gostam de você? Todos te amam Amber e conhecem sua história. Por que não permitir que possa amá-los também? Vamos voltar ao mundo real. Quero que veja uma coisa.

                -Se estiver querendo me sensibilizar com cenas de quando eu era criança e de quando meus pais eram vivos, não perca seu tempo. Eu me lembro de tudo e não preciso disso. Disparei vorazmente, em revolta.
                -Abra a porta novamente. E dessa vez, seu emocional será testado novamente. Existe uma bondade dentro de você, Amber. Você só está amargurada. Mas isso irá mudar.

Levantei –me e abri a porta. Dessa vez fui levada à casa de alguém. Não reconhecia nada por ali, logo deduzi que não estava em um lugar conhecido. De repente, vi Grace, nua, saindo do quarto em prantos. Aquela imagem me petrificou. Ela esmurrou a parede e escorregou pelo chão do banheiro, abraçando os joelhos. Ela falava o meu nome e pedia a Deus que não me levasse naquele momento. Ela se sentia culpada por ter pedido demissão e falado algumas verdades no dia do acidente. Grace não se despediu de maneira generosa e sentia um peso na consciência. Eu fiquei ao seu lado e respirei fundo, olhando para cima. Suspirei e continuei olhando para ela, que chorava sem parar.

Créditos: champagnatturma171.blogspot.com

                -Eu não quero mais ver isso, Por favor, tire-me daqui. A Grace não merece isso. Eu fui estúpida com ela.

                -Mas você não admitiu seus erros. Ela chora por não ter sido a pessoa que ela deveria ser naquele dia. Você não se sente triste por isso?

                -Ela pediu demissão. Eu só fiz a minha parte.

                -Não, não Amber. Você a deixou ir, sem analisar os motivos.
Aquilo era verdade e me cortou como uma navalha. Eu havia sido a grande vilã e ela ainda chorava a minha iminente morte?

                -As pessoas se permitem, Amber. Grace chora mesmo sabendo quem você era. Ela tinha um carinho muito grande por você. Ela te amava, como uma colega de trabalho, mas tinha medo de dizer, porque pensou que, em algum momento você distorcesse esse sentimento.

Eu não sabia o que dizer e abaixei a cabeça.

                -Eu ainda não terminei. Quero te mostrar outra coisa. Venha.

Senti a rajada de vento e estava em outro ambiente. Uma casa também. Vi alguém em pé assistindo a um canal de notícias, imóvel e muito assustado. Ele parecia não acreditar. Oh, Deus. Era o Harry. Respirei fundo.




                -Pronto, agora vai me culpar pelo o que eu fiz? Eu admito: fui cruel, mas era necessário. Ele estava se esquecendo de quem eu era.

                -Você não precisa fazer as pessoas te lembrarem disso. Com a sua personalidade incrível, elas sempre se lembrarão.

Voltei meu olhar para a cena. Harry tinha ido até o quarto e sentou-se na cama ao lado, debulhando-se em lágrimas. Após algum tempo, ele se levantou, pegou a caixa e olhou as fotos que eu havia rasgado.Pude perceber que ele não só sentia mal pelo o que aconteceu comigo, mas também, pelo o que eu havia feito com ele, a algumas horas atrás. Ele tentava conter o choro, mas era difícil.

                -Essas eram as únicas lembranças boas que ele tinha. E você não pensou duas vezes na hora de destruí-las, não é?

                -Não, eu não sabia! Eu achei que fossem apenas lembranças materiais, nunca imaginei isso! Meu Deus, o que eu fiz? Eu estava desesperada, pois destruí o emocional de uma pessoa que eu mal conhecia.
                -Para ele, era muito mais do que isso. Agora, suas lembranças estão partidas ao meio. E cabe a você, consertá-las ou construir lembranças melhores.

                -E como eu faço isso? Disse eu, limpando uma lágrima.


                -Logo, logo você saberá.

Jar Of Memories- Capítulo 7: Pain



              Eram três e meia da manhã quando acordei. Senti um grande mal-estar acompanhado de fortes calafrios. A janela estava aberta. Fechei-a rapidamente, coloquei meu casaco, calcei minhas sandálias e fui até o banheiro. Lavei o rosto e percebi que estava pálida. Senti uma tontura muito forte e me segurei nos arredores da pia para manter o equilíbrio. O que estava acontecendo comigo? A minha visão estava ficando turva e eu não conseguia me levantar. Abaixei a cabeça e fiquei alguns segundos assim. Dizem que ajuda e realmente funcionou. Melhorei o suficiente para sair do banheiro e ir para a cama. Deitei de barriga para cima e respirei fundo. Eu estava remoendo todos os acontecimentos até então: a demissão repentina de Grace, a entrada de Harry e a maneira como ele se comportou em seu primeiro dia. E ainda temos a tia Zoe, que, às vezes não fala coisa com coisa e me assusta, principalmente, em relação aos meus pais. Tentei pensar em outras coisas, mas, não consegui, meu estômago estava revirado e respirava fundo para não vomitar naquele momento. As horas se passaram e já eram seis da manhã quando tentei cochilar. Tarde demais. Era de hora de trabalhar. Como sempre, estava com olheiras tão fundas que o corretivo não conseguiu cobrir as imperfeições. Atirei-o contra o espelho irracionalmente e acabei ganhando sete anos de azar. Que maravilha. Procurei por algum batom apressadamente dentro da bolsa e não achei nenhum. Ao abrir o armário, acabei esbarrando em um vidro de esmalte vermelho que havia comprado em uma viagem especial. Ele se espatifou no chão, derramando todo o líquido pelo piso branco. Peguei alguns papéis-toalha e limpei rapidamente. Peguei as chaves do carro e não tive tempo para comer, nem para falar com a tia Zoe. Quando eu estava dentro do carro, já preparada para seguir, ela abriu a porta e fez um gesto de despedida. Eu não sei direito o que vi, mas ela parecia chorar. Acenei de volta e segui para a agência. Quando entro pela recepção, encontro Grace sentada, com um vestido florido, segurando uma pasta. Senti um frio percorrer toda a minha espinha dorsal. Tentei disfarçar um sorriso, mas, não convenceu muito.

                -Bom dia, Grace Minnermann, veio assinar sua demissão tão cedo? Perguntei com uma pontada de ironia.

                -Sim, não quero perder tempo com coisas que não me levarão adiante. Grace retribuiu a ironia, dando um leve sorriso.

                -Bom, então não vamos perder mais tempo. Acompanhe-me, por favor, vamos conversar com a gerente de Rh e ela resolverá tudo! - Disse eu, dirigindo-me ao setor do Departamento Pessoal. A gerente se assustou, assim que me viu.

                - Posso ajudar Srta. Hünderberg? Perguntou curiosa.

                -Gostaria que você ajudasse a Srta. Minnermann com o pedido de demissão. Falei secamente.
Ela não entendeu e franziu o cenho. Eu expliquei que Grace já havia falado comigo que não desejaria trabalhar na agência. Assim que deixei tudo esclarecido, deixei a sala, engolindo o choro e as lágrimas. Eu não queria que Grace saísse daquela forma. Ela era tão útil aqui dentro. Como eu sentiria dela. Eu nunca disse isso para ninguém, mas, Grace é como se fosse uma irmã. Durante esse tempo todo, ela era o meu confessionário. Sempre me ajudava quando tinha dúvidas ou precisava resolver algo. Grace faria muita falta. Não sei o que será de mim.

Estava perdida nos meus pensamentos quando Grace bateu à porta.

                -Posso entrar Srta. Hünderberg?

                -Pode sim, Grace. Veio se despedir? Ou rir da minha cara? Está satisfeita ao ver a minha derrota? Limpei as lágrimas e exibi  minha indignação.

                -Eu vim para agradecer por tudo. Muito obrigada e espero que encontre alguém melhor do que eu. Não tenho condições de continuar aqui. Cansei de levar ordens suas e a forma como você se refere aos empregados e colegas é muito rude e eu não gosto disso. Por isso estou saindo. Grace estava séria, fitando-me nos olhos.

                -Grace eu NÃO PRECISO DE SEU MÍSERO AGRADECIMENTO. Portanto, deixe essa sala sem se humilhar. E VOCÊ CONHECE A FORMA COMO TRABALHO. DEIXEI ISSO BEM CLARO QUANDO TE ADMITI. Peço que se retire antes que eu diga algo bastante desagradável. Eu cruzei meus braços  e suspirava, tentando me controlar. Meu corpo estremecia de ódio e tristeza.

                -Um dia você vai entender Amber. Esse seu remorso não adiantará de nada. Por que ser tão fria? As pessoas te admiram de qualquer jeito. Você não precisa disso, não mesmo. Grace olhou para mim triste com os olhos marejados e fechou a porta silenciosamente.

                Eu encarei aquilo incrédula. Como existem pessoas tão atrevidas? Ela não tem esse direito de sair falando de remorso, ela nem sabe o que eu passei durante a minha vida inteira. Fiquei órfã aos dez anos. Não tive uma vida fácil. Trabalhei muito, em vários lugares,  os mais hostis possíveis. Quem era ela para dizer isso?

               A raiva me consumia em vida. Joguei todos os papéis no chão e deixei que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Jasmine bateu à porta desesperada. Engoli o choro e tentei parecer compenetrada no que estava fazendo. Ela me chamou para irmos até a sala de Harry, porque ele estava “tentando revolucionar a agência”. Acompanhei Jasmine e assim que cheguei à sala, todos se entreolhavam. Jasmine e Ella olharam para mim com pena e pediram que eu fosse razoável. Mas aquilo me irritou muito, muito mesmo. Não teve jeito: descarreguei todo o meu ódio e rancor no jovem e as conseqüências foram tristes.
                -Você é surdo ou o quê? Já não havíamos falado sobre isso antes, Styles? -Disse eu, com a mão na cintura, revirando os olhos.

                -Sim, mas eu pensei que pudesse mudar sua opinião...  – Disse, olhando para baixo. – Não vê como isso tudo é incrível? Esse papel de parede, essas fotos! Eu sei que não tive sua aprovação, mas, agora, não consegue ver como isso é maravilhoso? Ele abraçava a si mesmo, gerando uma sensação de pena por todos, menos por mim que o encarava séria e furiosa.

                -Nossa realmente é tudo muito lindo! - Analisei eu, ironicamente, desfazendo a postura anterior. - Seria uma pena enorme se eu fizesse algumas “mudanças” não é mesmo?

Antes que ele dissesse algo, rasguei todos os papéis de parede, de fora a fora, arranquei todas as fotografias do mural, derrubei itens pessoais e destruí alguns dos planejamentos que ele tinha elaborado. Ao final, soltei um sorriso maquiavélico, em meio às lágrimas, que eu já não conseguia controlar.

                -Pronto! O que achou da nova decoração? Minha voz exalava sarcasmo. Meus cabelos estavam desarrumados e a pouca maquiagem que usava, completamente borrada. Todos estavam diante de uma mulher que nunca tinham visto. Uma louca, na verdade.



Ele olhava assustado, petrificado com a minha atitude. James olhou para baixo e disfarçou o desapontamento. Ninguém falava nada. Todos se entreolhavam e finalmente, depois de alguns minutos me encarando, Harry não disfarçou as lágrimas e a frustração. Ele se ajoelhou, tirou os óculos e tentava juntar os pedaços do que restou em caixas, tomando muito cuidado para não misturá-las. Ele me encarava, incrédulo.  Eu o avisei sobre as regras. Regras são regras e devem ser obedecidas. Não me arrependi disso, em nenhum momento. Quando todos se retiraram, ele veio até mim e por incrível que pareça, não demonstrava ódio, mas pena, o que me despedaçou por dentro.

                -Eu não sei exatamente o que aconteceu com você, mas não consigo te odiar. Só sinto pena. Desculpe-me pelo transtorno. – Dizia ele, sério, encarando-me profundamente.

                - Quem deveria sentir pena era eu. Acho que não preciso mais de você por aqui. Já me causou problemas demais. Pode recolher as suas coisas e ir para casa. Conversamos sobre sua demissão depois. Eu estava tentando parecer forte e minha alma clamava por benevolência. Não dei chance.

                -Eu já esperava por isso. Tenha um bom dia. E conversaremos amanhã, sem problemas. Ele soltou um suspiro, olhando para cima.

                Harry deixou a sala, enquanto fiquei por alguns minutos. Eu puxei uma cadeira e me pus a chorar. Fiquei ali por algumas horas, pensando no que eu tinha me tornado. Grace e Harry... Eles mereciam isso? Por que eu não conseguia aquele sentimento de mim? Eu olhava em volta e me sentia perdida.

                Algumas horas depois, fui para a minha sala e montei algumas planilhas, tentando esquecer o acontecido mas tudo o que eu fiz, foi em vão. Não conseguia pensar em nada.  Resolvi encerrar as atividades e dispensar a equipe quando Elaine veio até mim e disse:

                -Amanhã será um novo dia, Srta Hünderberg. Tente descansar.

                -Eu o farei, Elaine obrigada.

Elaine saiu e eu fui a última a deixar o local. Ao entrar no carro, fui respirando fundo, tentando dirigir. Não adiantou muito. Cada cena se repetia em minha cabeça e o meu outro lado tentava pensar em outra coisa. Eu estava apavorada. Não sabia se parava o carro ou se continuava. Não conseguia enxergar o que via. Minha visão estava embaralhada. O celular começou a tocar. Era a tia Zoe. Eu o ignorei em meio às lágrimas. Foi quando vi uma luz muito clara em minha direção. Infelizmente, ele me acertou em cheio e arrastou meu veículo por 200 metros. Eu olhava zonza e via sangue por todos os lados. Uma parte do meu corpo parecia ter sido dilacerada ou algo assim. Ouvia uma voz gritando desesperadamente por ajuda. Minha visão estava embaçada eu tentava falar com alguém, mas, eles me pediam para ficar quieta.  “A ajuda está chegando” diziam eles. Eu tentava me mover, mas, senti que algo que segurava, me prendia. Um senhor tentava conter minha agitação segurando minha cabeça, dizendo que tudo ficaria bem, mas eu estava perdendo contato. Sua voz estava longe, cada vez mais longe. Essa era a morte? Ela estava me rondando esse tempo todo? Finalmente, algo bom iria acontecer. Eu fechei meus olhos e descansei em paz.

Créditos: www.katu.com
                

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Jar Of Memories - Capítulo 6: Remember Us

Harry mostrando suas "ideias" para a campanha da agência


                O dia não poderia ter sido pior. Faltavam algumas horas para o término do expediente quando o web design bateu à minha porta dizendo que os colegas de trabalho estavam se desentendendo por causa de uma campanha. Aquilo me deixou nervosa e saí imediatamente para ver o que estava acontecendo. A princípio, achei que fosse loucura, mas, depois cheguei à conclusão de que Harry havia enlouquecido e queria nos levar a falência.

                -Isso é loucura! Amber jamais concordará com isso, pessoal! -Dizia Jasmine, quando abri a porta de repente, ao ouvir meu nome. Perguntei a eles o que tinha acontecido, mas, todos se negavam a explicar. Chamei Harry para a discussão. Ele chegou radiante e parece que não havia notado nada de errado entre nós.

                -Posso perguntar por qual motivo estou aqui? Digo isso porque estava muito empolgado com o meu novo plano. Os anteriores estavam um horror! Eu também modifiquei alguns roteiros, estavam muito monótonos. Essas campanhas precisam de vida! Ele olhava para cima, fazendo gestos e seus olhos brilhavam mesmo cobertos por um par de óculos lamentável.

                -Você ficou louco! A Srta. Hünderberg jamais concordará com isso! Reveja o plano antes que seja tarde demais, Harry! Jasmine Downson estava aparentemente nervosa.

Harry olhava para ela e tentava compreender seu pedido, enquanto Jasmine o encarava, aflita. Eu intervim, pois, já passava da hora de alguém tomar alguma providência e esse alguém ERA eu. Pedi a Harry que me explicasse os planos que ele tinha elaborado e Downson estava certa: Nunca havia lido tanta bobagem em toda a minha vida.

Eu cruzei os braços e disse que aquilo certamente não aconteceria. Nem ali, nem durante o meu período como presidenta da empresa. A simples idéia de contratar aquela “tenista sueca” chamada Leeroy para desenvolver uma coreografia sobre ceras líquidas para assoalhos não fazia o menor sentido. Bailarinas dançando ao som de uma sinfonia qualquer para demonstrar que o local brilha tanto e tudo acontece como em uma apresentação de ballet foi o cúmulo da bizarrice.

                -Sinto muito Styles, mas não aceitaremos o seu plano! -Dizia eu, séria.

                -Por que? Esse sempre foi uma idéia tão formidável para os outros publicitários, todos amaram a idéia. Só não conseguimos realizá-la em outros lugares por falta de verba, mas, aqui eu tenho certeza que você terá como transformar esse sonho em realidade. Harry juntou as mãos e levou-as ao ar como em um gesto celestial.

                -Sinto muito, a resposta ainda é não. -Cruzei os braços, já impaciente.

James percebeu que a tensão se instalara e tentou evitar um possível conflito, porém, eu o interrompi. ESTÁ NA HORA DE MOSTRAR QUEM MANDA NESSA DROGA AQUI!

                -Harry, eu sugiro que vá para casa, descanse e pense em algo melhor amanhã, ok? Já tivemos o suficiente por hoje!- Minhas palavras eram duras e decisivas.

                -Se preferir podemos trocar as bailarinas por dançarinos! Vocês poderiam ser os dançarinos e aí seria...
                -Eu serei curta e grossa: Não. A resposta é não. Seu amigo não vai desenvolver coreografia nenhuma porque isso não vai acontecer. Além disso, essa função de decidir o será minha, não sua. Não entendeu a loucura que está fazendo? Sua idéia é HORRÍVEL! NÃO BANQUE O ESTÚPIDO!

Seus olhos marejavam. Bom, aquilo era sinal de que, falei o que devia, mesmo que fosse dolorido. Cada um tem que saber o seu papel na sociedade e, ele tinha que saber o dele.

                O dia foi longo e resolvi encerrar o expediente naquele momento. Todos se retiravam apressadamente sem grandes despedidas. Já Harry, olhava para baixo ajeitando os óculos. Com certeza, eu havia sido extremamente ríspida, mas, não dei importância.

               Quando cheguei em casa, tia Zoe havia preparado o jantar e estava sobre um tapete, no chão, acendendo  incensos. Como eu odiava aquele fedor. Para ela, era como “entrar em um estado de espírito”. Segui calada para o meu quarto e fiquei refugiada em um álbum de recordações dos meus pais. Todas as fotos, desde época de namoro até a última semana de suas vidas. Eu olhava para cada uma delas atentamente e me perguntava como seria se eles ainda estivessem vivos? Morariam comigo? Apoiariam minhas decisões? Teriam cuidado mais de mim para que tratasse as outras pessoas melhor? Infelizmente, eu não sei, nem nunca saberei.  Aquelas fotos apenas se tratavam das melhores lembranças que eu tinha e das quais, com certeza, eu deveria me lembrar sempre.

Cidade onde Amber nasceu e cresceu, Sttugard, Alemanha.
Créditos: presse.stuttgard-tourist.de

Jar Of Memories- Capítulo 5: Pissed



             Estacionei o carro e segui para a entrada da agência. Na recepção, deparo-me com Elaine sentada, com uma das mãos sobre o queixo, como se estivesse aguardando alguém. E esse alguém era eu, lógico.

                -O novato de óculos já chegou, Srta. Hünderberg. Devo chamá-lo?

Eu fechei os olhos e passei a mão na testa. Ai, que droga eu havia esquecido completamente sobre a admissão de Harry. Não havia impresso os papéis necessários. Não fiz absolutamente nada do que costumo fazer quando recebo novos funcionários. Eu precisava corrigir aquilo rápido. Ao olhar para Elaine novamente, olhei que a cadeira de Grace estava vazia. Ela já deveria ter chegado.

                -Elaine, por onde anda sua colega Grace? Ela não veio?

                -Não sei Srta. Hünderberg. Não tenho contato com Grace desde ontem. Ela disse que iria resolver uns problemas e não voltou. Elaine disparou cada palavra sem fitar-me, olhando para o computador.

Aquilo me deu uma leve irritação. Como ela se atreve a não comparecer ao serviço? Ela é funcionária minha e me deve no mínimo, uma boa justificativa!

                -Bom, quando ela chegar, peça a ela que vá à minha sala. Preciso conversar com ela imediatamente, disse eu, passando a mão no cabelo, seguindo para minha sala.

                -E o que eu faço com o novato de óculos? Perguntou ela, levantando-se, esperando uma reposta.

                -Diga a ele para vir até minha sala. Vou explicar algumas regras da agência e como será executado o trabalho aqui.

Elaine assentiu e segui para minha sala. Ao chegar, joguei minha bolsa contra uma cadeira e suspirei. Tenho duas coisas para me preocupar: a admissão de Harry e o sumiço de Grace Minnermann? Se ela não aparecer daqui a algumas horas, terei que entrar em contato com a polícia. Enquanto arrumava a papelada sobre a minha a mesa, Harry chegou à porta.

                -Posso entrar? Perguntou ele, desconfiado, olhando para os lados.

                -Pode sim. Sente-se. Tenho que te explicar algumas coisas antes de apresentá-lo aos seus colegas. Eu estava nervosa porque estou preocupada e me sinto responsável pelo o que fiz. Tentei manter o foco e só desejava para que aquilo se acabasse logo.

Harry sentou e prestou atenção a cada instrução que eu dava. Tentei explicar o organograma da agência e qual seria sua função aqui dentro, apesar de ter certeza de que ele sabia muito bem o que aconteceria ali. Para minha surpresa, ele fora simpático e tentou mostrar presteza sempre que necessário. Ao final, fui apresentá-lo aos nossos colegas de trabalho. Apesar dos olhares estranhos sobre seu estilo, as pessoas pareciam satisfeitas. Apresentei a ele o local de trabalho e Harry ficou encantado, pois teria sua própria sala e disse que tinha inúmeras idéias para redecorar a sala.

                -Eu tenho idéias incríveis e adorarei trabalhar aqui. Amanhã começo a trazer minhas pastas de arquivo. E colocarei fotos maravilhosas que tirei quando viajei para o Japão. Você vai adorar, eu tenho certeza e...

                -Desculpe te interromper, Harry, mas prefiro que a decoração permaneça assim. Eu quero seguir um padrão e você deve se encaixar nesse quadro, certo? Eu não disse nada sobre suas roupas porque acho que gosta de se vestir assim, portanto, esta é a única coisa que permitirei neste primeiro tempo. Sem fotos, sem pastas, sem papel de parede. Eu quero que fique da forma como está e se não se sentir à vontade, ainda está em tempo de desistir, disse eu, secamente, fitando-o.

Ele me olhou de volta e senti seus olhos marejarem. Ele tirou os óculos e fechou os olhos, tentando limpar as lágrimas. Ah, não! Ele estava chorando?

                -Por que você está chorando? Perguntei, colocando as mãos na cintura.

                -Eu sempre tive uma sala personalizada. Meus chefes nunca implicaram com nada. Essas fotos desta viagem significam tudo para mim e eu realmente queria...

                -Olha só, garoto, eu não tenho tempo para ouvir o quanto você ama as suas fotos idiotas ou o quanto você ama personalizar um local, certo? Se não quiser, caia fora. A fila sempre anda! Senti que minhas palavras cortaram qualquer interação que havia entre nós, mas, não agüentei, eu não tenho tempo e muito menos paciência. Ainda mais com um  nerd que se faz de sentimental.

Ele ficou estático e continuou me fitando, sem acreditar. Ele sentou na cadeira e desejei boa sorte. Entreguei uma pilha de planos de campanha, para que ele avaliasse. Fechei a porta e senti meu coração apertar. Abaixei a cabeça e segui para a minha sala.

                Tentei ficar o maior tempo possível ali, sem receber nenhuma visita. E era assim que eu queria. Não quero que ninguém venha me atormentar. Tentei ligar para a Grace, mas, sem sucesso. Liguei para a recepção, também sem novidades. Aquilo começava a me preocupar e eu me sentia eternamente culpada. O que eu fiz? Como consertarei as coisas? O desespero me consumia em vida e comecei a chorar. Ao ouvir o celular tocando, engoli o choro e tentei parecer controlada. As lágrimas borraram toda a minha maquiagem. Atendi tentando parecer bem.

                               -Srta. Amber Hünderberg, em que posso ajudar? Perguntei eu, entre soluços.
                               -Oi Srta. Hünderberg, sou eu, a Grace.

Aquilo parecia música para os meus ouvidos. Saltei da cadeira instantaneamente.

                               -Grace, por onde você andou? Estive muito preocupada! Como você está?

                               -Srta, não há motivos para se preocupar. Eu estou bem. Eu sei que esse modo não é o mais correto de se fazer, mas, devo lhe dizer que não trabalharei mais para a sua agência. Grace manteve o seu tom decidido e eu perdi o chão, sentindo uma forte tontura e minha visão escureceu por alguns segundos.

                -O QUÊ? COMO SE ATREVE A FAZER ISSO COMIGO, MINNERMANN? VOCÊ NÃO PODE SAIR ASSIM, A HORA QUE BEM ENTENDER. EU PRECISO DE VOCÊ! Gritei eu, sem me importar em chamar a atenção.

                -Você não manda em mim, Srta. Hünderberg. Não pode me dizer o que fazer. Eu não quero trabalhar com a sua equipe. Percebi que estou perdendo tempo e a senhora não tem condições de liderar uma equipe. A senhora é fria, rude e mal-educada. Só pensa em si mesma. Que tipo de pessoa quer crescer em um lugar assim? Eu não quero. Amanhã irei para prestar minhas contas e assinar todos os papéis de minha demissão. Até logo.

 Aquela não se parecia com a Grace que eu conhecia. O que estava acontecendo? Eu tenho culpa por tudo isso? Antes que pudesse esbravejar algo, Grace desligou o telefone. Como ela tem essa coragem? Ela acabou de me afrontar e quando fico assim, é porque terá volta. Ela poderia ter se demitido, mas não da forma que fez. Eu precisava pensar em algo, logo.



Jar Of Memories - Capítulo 4: An Annoucement

Estereótipo da sala de reuniões da agência de Amber
Créditos: www.hagah.com.br

                 A semana foi muito corrida. Mal tive tempo de resolver as pendências da agência. A ajuda de Grace foi satisfatória (eu estou dizendo isso mesmo?) e me salvou muitas vezes. Apesar de ser rude e mal-humorada eu agradeci a ela pela ajuda, pois foi muito útil. Mas assim que a sexta-feira chegava, a minha decisão tinha que ser tomada: eu precisava escolher o novo candidato para a vaga de planejador, já que Sam viajou e nunca deu notícias. Eu sempre achei um absurdo, uma falta de respeito comigo e com os outros funcionários, porém ele não se importou.

                Grace entrou na sala e parece que estava lendo a minha mente. Seus olhos claros brilhavam e seu sorriso estava estonteante.

                -Senhorita Hünderberg, hoje a grande escolha deve ser feita. Já tem algum candidato escolhido?

                -Grace, eu farei a minha escolha e ninguém interferirá nisso. Todos vocês ficarão sabendo daqui a algumas horas. Convoquei todos para uma pequena reunião, um pequeno encontro para ser mais precisa – Falava eu, examinando as planilhas, fazendo algumas alterações necessárias para que James as corrigisse.

                -Desculpe-me Srta. Hünderberg, eu não quis incomodar. Acho que me empolguei demais, disse ela, em um meio sorriso.

                -Pois peço que se contenha. Afinal, não quero funcionários desajustados na minha agência. Agora eu gostaria que me deixasse trabalhar. Tenho alguns roteiros para dirigir e enviar essas planilhas ainda hoje. Eu olhava secamente para ela, sem demonstrar nenhuma expressão.

Grace olhou-me triste e fechou a porta. Naquele momento, eu pude sentir que havia passado dos limites. Pelo modo como me olhou é certeza que se isolou no banheiro e se desatou a chorar. Grace era sensível e qualquer palavra rude a machuca muito. Às vezes, eu me esquecia disso. Todos toleravam a minha antipatia, mas Grace já estava sendo forte há algum tempo. É normal que queira explodir em lágrimas. Eu não a culpo, mas também não correrei atrás dela para limpar suas lágrimas e lhe dar um “abraço de amiga”. Eu não sou disso, não consigo lidar com meiguice. Não nasci para coisa, entende? É o meu jeito.

                No meu momento mais crucial, recebo uma chamada vinda da recepção. Aquilo me deixou desconcertada. Será Grace? Será que ela quer dizer algo importante? Fui tomada por dúvidas e o deixei tocá-lo por três vezes. Na quarta eu respondi:

                -Srta. Hünderberg falando, quem gostaria?

                -Sou eu, Srta. Hünderberg, a Elaine. Tem um senhor aqui embaixo chamado Thomas Lippmann. Ele está aqui porque tem uma reunião com a senhora. Posso confirmar e pedir para subir?

                -Sim, Elaine. Faça isso depressa e o acompanhe durante todo o trajeto. Não quero que ele se perca dentro deste local, certo?

                -Certo. Srta. Grace ainda não voltou para a recepção. Devo reportar para a senhora?

                -Ora, azar o dela. Eu não quero saber o que ela anda fazendo. Grace tem demostrado algumas atitudes que não me agradam nem um pouco. Não se preocupe com ela. Uma hora, ela voltará.

Elaine ficou em silêncio e desligou. Aquilo soava como um grande talho dentro da minha alma. Eu fiz algo errado, muito errado. No fundo, eu sentia que deveria descer as escadas correndo até ao banheiro, encontrar Grace e dizer a ela o quanto eu sentia pelas palavras que disse. Mas, a racionalidade falou “mais alto.” Engoli o choro e me preparei para encontrar o Sr. Lippmann.

                O Sr. Lippmann chegou acompanhado por Elaine que fez seu caminho de volta assim que me encontrou. Fomos para a sala central e discutimos bastante até chegarmos a uma conclusão sensata. Trocamos algumas “farpas”, porém, nada sério. Terminei o dia chamando todos os presentes na agência para o grande anúncio. Quando disse que se tratava do novo planejador, todos ficaram esperançosos e pude ver sorrisos para todos os lados. Eu sinceramente não consigo acreditar. Como estas pessoas podem estar felizes? Estou contratando um concorrente deles. Cada um fará o seu trabalho como equipe, mas, ele pode ser muito bom e se provar que tem habilidades para outras áreas, eu poderei dispensar muitos funcionários, incluindo esses que estão tão esperançosos. Então, por que essa animação toda? Eu não gostaria de contratar ninguém. Todos aqui estão fazendo o seu trabalho e um estranho no ninho poderia arruinar tudo. Entretanto, venho sido muito cobrada pelos diretores de redação e criação, além do pessoal da mídia, estes sim, tem sido insistentes. Olho para o relógio e vejo que todos estão presentes, exceto Grace. Sinto meu coração apertar, mas disfarço o nervosismo e começo o meu pequeno discurso:

                -Boa tarde, meus caros. Como todos vocês sabem, hoje é o dia da decisão. Estou aqui com o nome do candidato escolhido e espero ter feito a decisão certa. Que ele possa ser capaz de orientá-los, auxiliá-los em todo e qualquer obstáculo a frente de vocês. Acompanharei todos os passos do novo planejador e farei uma rígida inspeção sempre que necessário. Devo atentá-los que a obrigação de vocês não é somente honrar a sua ocupação como também reportar qualquer problema que possam ter com este novo planejador, ok? Alguma dúvida?

                A sala estava em silêncio. Todos estavam ansiosos, e pude ver isso em cada semblante:

                -Sem mais delongas vamos ao nome do escolhido: O novo planejador será Harry Styles.

                Todos olhavam surpresos. Muitos fizeram franziram o cenho e se entreolhavam confusos. Aos poucos, alguns deixavam a sala, sem demonstrar expressão de alegria. Eu não estava entendendo mais nada. Ora, não era isso que eles queriam?

                Pedi a gerente do Rh, que entrasse em contato com o rapaz o quanto antes, para que providenciasse todos os detalhes da admissão.

                -Segunda-feira, eu quero esse garoto aqui. Parece que a escolha não agradou muito, não é?

                -As pessoas não o conhecem, Srta. Hünderberg. Isso basta para nós. Porém, tudo pode mudar e irá mudar. Pelo pouco que ouvi falar da Grace, ele parece ser um bom profissional. Espero que não nos decepcione- Dizia ela, deixando a sala com varias pastas na mão.

                Recolhi meus pertences e fui para a casa, pensativa, naqueles semblantes confusos e outros que demonstravam surpresa. E eu? O que eu achava de tudo isso? A única coisa que espero é ter feito a coisa certa.
Abro a porta e encontro minha tia, assistindo a um documentário sobre vidas passadas.  Na verdade, ela parecia estar dormindo. Aquilo me deu um arrepio na espinha. Detesto coisas desse tipo. Vieram de outro mundo, de pessoas doidas que devem ser internadas em um sanatório porque isso não existe, definitivamente não.

Fui caminhando lentamente até a mesinha, onde estava o controle. Quando estava prestes a desligar, ouço uma voz por trás de mim.

                -Querida, eu ainda estou aqui.

                -Nossa tia Zoe, que susto! Eu achei que a Sra. estava dormindo!

                -Bom, eu não estava. E gostaria que não desligasse a TV. É interessante para mim e eu aprecio muito. Ela me olhou com um sorriso e aquilo me assustou para caramba.

                -Você acredita, mas, eu não acredito. E preciso me retirar, porque, essa conversa está me fazendo um pouco mal. Boa noite.

                -Boa Noite, Amber. Tenha bons sonhos!


Subi as escadas e respirei fundo. Hora de tomar banho e ir para a cama. E parar de pensar no que  a tia Zoe fala.