O dia estava terminando. Finalmente, pois queria ir para a
casa, tomar um banho e descansar. Não agüento ver essa tonelada de papéis na
minha frente. Resolvi abrir a porta do armário mais próximo e os empilhei, para
manter a ordem. Recolhi meus itens pessoais e quando estava pronta para deixar
o escritório, Grace bate à porta.
-Entre
Grace, o que você quer? Perguntei, impacientemente.
-Gostaria
de saber o resultado da entrevista. Quem você contratará? Perguntou,
esperançosa.
-Não
entendo esse seu interesse nessa entrevista. Isso será uma decisão minha e
ainda tenho a semana inteira para pensar no assunto. Meu tom foi áspero, mas eu
já estava cansada de toda essa curiosidade.
-Ok,
Srta. Hünderberg, perdoe-me a intromissão. É porque todos na agência precisam
de urgente de um planejador. O número de campanhas a serem entregues tem
aumentado consideravelmente. Saiba que isso é uma dúvida de todos, não somente
minha, ponderou ela, olhando para baixo. – Já estou de saída, deseja alguma
coisa?
-Não
Grace. Vá em paz. Estou saindo também, preciso descansar. Até amanhã.
Eu estava cansada, era só isso. E quanto estou assim fico
mais mal-humorada. Algumas pessoas não entendem isso e acham que devo estar bem
sempre. Eu não vou fingir que estou bem porque não me encontro nessa condição.
É tão difícil de entender?
Segui
para o estacionamento, sem olhar para ninguém, quanto mais me despedir. Entrei
no carro e parti para casa, rapidamente. Furei alguns sinaleiros e quase me
acidentei. É a pressa, somente pressa de estar em meu lugar.
Cheguei em casa, joguei minha bolsa no sofá e ouvi alguém
perguntando pelo meu nome:
-Amber
Lynn Hünderberg, é você?
-Boa noite
para você também, tia Zoe. Como foi seu dia? Direcionei-me até a geladeira onde peguei um chá gelado e o tomei ali mesmo.
-Foi
bom, muito bom. Já preparei nosso jantar. Você está bem? Ela se aproximou de
mim, preocupada.
-Sim,
só estou cansada e não vou jantar. Meu dia foi desgastante.
- Você
precisa de alguém para cuidar de você. Ela me abraçou e pude sentir que estava
falando a verdade. Eu a abracei de volta, sem muita reação.
-Tia, eu
estou bem. Estou apenas com uma dor de cabeça. Não é nada de mais, acredite.
-Por
favor, não afaste minha companhia, Amber. Eu sou sua única família agora,
lembra? Seus olhos claros fixavam-se nos meus e me emocionei.
-Não
comecemos a falar de coisas ruins, por favor. Sofri muito, mas, não posso mudar
os fatos. Sinto muito. Minha resposta foi fria e evitei olhar nos seus olhos,
pois se o fizesse eu choraria ainda mais.
Ela sorriu e sentou no sofá, sugerindo que eu fizesse o
mesmo com um gesto. Aquilo já era prenúncio de uma longa conversa. Sobre o meu
passado. Oh, não...
-Seus
pais morreram de tragicamente, em um terrível acidente. É normal que se sinta
desamparada e que ignore a preocupação das pessoas, mas, essa não é você,
Amber. Você sabe que sempre podemos melhorar quem somos - Dizia ela, segurando meu
rosto, carinhosamente.
-Tia,
que papo é esse? Por que você está dizendo isso? Este discurso piegas de novo?
Eu olhei para ela, irritada.
- Eu não
estou dizendo isso por causa de alguma coisa. Apenas acho que deveria tratar
melhor as pessoas, não acha? Perguntou, arqueando uma sobrancelha.
-Eu
trato todo mundo bem, tia Zoe. E pare com essas coisas, ok? Boa noite e durma
bem. Tirei sua mão de meu rosto, dei um fraco sorriso e subi para tomar um
banho. Depois disso, fui para a cama, pensativa.
Por que pandemônios minha tia estava conversando aquilo
comigo? Eu tenho medo de quando ela começa a falar sobre meus pais. Até hoje, a
morte deles nunca foi completamente esclarecida. Minha tia disse que eles
morreram em um trágico acidente de carro quando voltavam para casa. Eu tinha
dez anos, então só sabia chorar, pois sabia que não os veria novamente. Eu
queria dizer o quanto eu sentia por ter sido uma péssima filha, por tê-los feito
chorar por tantas noites, em que me entregava ao mundo e os deixava loucos de
preocupação. Tudo aquilo não era justo comigo. Eu não tive a chance de
consertar os meus erros? Não, não tive. E no dia do sepultamento, eu fiquei de
cama, pois estava queimando em febre e não tinha condições de ficar em pé.
Resumo da ópera: eu não os vi, depois de mortos. Isso me entristece porque eu
queria dizer o meu adeus e pedir perdão, mas enfim, não pude. Guardo as boas
lembranças de quando morávamos em Stuttgard, onde conhecíamos todos que nos
cercavam. E também de quando íamos aos festivais ouvir uma boa música e dançar
alegremente, sem malicias ou qualquer tipo de maldade. Infelizmente, em vinte
anos, muita coisa mudou. Eu cresci, me tornei rígida, chata e odiada por
muitos. E verdadeiramente conhecida por poucos: Minha tia é a única pessoa que
conhece o meu processo de uma doce garotinha para uma mulher fria e calculista.
Algumas lágrimas escorreram do meu rosto quando me lembrei de todo o passado e
acabei adormecendo em meio aos soluços e a tristeza que invadia minha alma.
Estereótipo da tia Zoe Übermann
Créditos: alemakeart.blogspot.com

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