Quarto branco
Créditos: pt.dreamtime.com
-Como
está se sentindo Srta. Amber Hünderberg? A voz era grave e abri os olhos
imediatamente e não havia ninguém por perto. Aquilo era perturbador.
-O que
está acontecendo? Onde eu estou? Eu morri não foi? - Disparei uma pergunta
atrás da outra, olhando para os lados, esperando por respostas.
-Amber,
peço que tenha calma. Quanto menos souber agora, melhor. São muitas informações
e eu não poderei responder todas as perguntas. O tempo fará isso e você compreenderá.
-Afinal,
quem é você, ora? E por que estou aqui?
-Amber,
te ajudarei a entender algumas dúvidas. Eu não tenho um nome definido. Alguns
me chamam de Deus, mas isso não é uma verdade absoluta. Eu posso ser o que você quiser que eu seja.
-O quê?
Ok, Ok. Você faz o que? E o que eu estou fazendo aqui?
-Amber,
levante-se e abra a porta. E eu lhe explicarei o resto.
-Que
porta? Não há porta nenhuma aqui! - Disparei eu, colocando as mãos na cabeça.
-Amber,
concentre-se. Caso contrário, não conseguirá compreender nada. E ficará aqui
para sempre.
Eu suspirei e me levantei. Olhei para frente e me
concentrei. Logo, vi uma porta. Eu a abri e um forte vento me puxou. Quase fui
derrubada. Olhei para baixo e parecia que estava voando, suspensa no ar. Era surreal. Olhei para mim mesma e não
encontrei meu corpo. Entrei em pavor. Eu via, mas, não conseguia ser vista. Insano? Muito, muito mesmo. Fechei os
olhos e ouvi a voz novamente:
-Ouça,
Amber com muita atenção. Aquilo que você verá daqui a alguns segundos é real.
Você estará assistindo a sua reanimação. Sofreu um grave acidente e está em uma
tênue linha entre a vida comum e a espiritual. Ninguém te ouvirá, você está em
outra dimensão, portanto, não adianta gritar ou tentar tocar nas pessoas, elas
não sentirão nada, pois não estão em estado adequado para isso. Tente-se
acalmar. A situação é delicada e precisa ser forte.
Assim
que ouvir a voz, fui jogada para o local do acidente. Passava pelas pessoas e
via muitas delas em estado de choque. Algumas delas se abraçavam, incluindo a
tia Zoe. Quando a vi, meus olhos
marejaram. Como eu queria abraçá-la e dizer a ela o quanto eu sentia por ter
sido uma sombrinha tão ausente e fria. Os bombeiros formavam um cordão de
isolamento. Fui me aproximando aos poucos e pude ver a cena mais chocante de
toda a minha vida. Eu estava presa pelas ferragens retorcidas do carro e do
caminhão. Os bombeiros serravam rapidamente com a esperança de me tirar com
vida. Logo, eles o fizeram. Nesse
momento, minha tia se aproximou aos berros gritando o meu nome e o quanto me
amava e que não queria que eu morresse. Ela estava em estado de choque e
foi levada pelos bombeiros para outra ambulância. Fui colocada com cuidado na
maca. Logo, estava usando uma máscara de oxigênio e minha saturação estava
baixa, muito baixa. Eu estava praticamente morta.
Os batimentos eram lentos e a pressão baixava a cada segundo. Eu havia perdido uma quantidade absurda de
sangue. Alguns paramédicos falavam em traumatismo craniano, mas ninguém afirmou
com certeza. Fui colocada dentro da ambulância e segui para o hospital com
dois paramédicos e dois médicos que me assistiam o tempo todo. Verificavam
todos os meus sinais e já tentavam a reanimação, pois, havia feito uma parada
cardíaca e respiratória. Conseguiram me manter meus batimentos por
alguns segundos, mas logo fiz outra parada e assim acontecia, sucessivamente.
Eu estava em estado de choque. Nunca pensei que fosse ver meu próprio fim. Era
algo tão triste. Pensava na tia Zoe, que gritava ao ver minha maca passando
para o centro cirúrgico rapidamente. Ela tentava se desvencilhar das pessoas
que chegavam aos poucos, procurando por noticias. Todos os vizinhos estavam
ali. E por incrível que pareça, alguns choravam desconsolados. Lauren Whitaker era uma delas. Ela abraçava
minha tia e dizia que tudo daria certo. Suas lágrimas escorriam, molhando seu
suéter de cashmere. Por que aquelas pessoas mereciam sofrer por minha causa?
Aquilo não era justo. Elas tinham sido pessoas boas. Eu era a malvada e ingrata
e são elas que sentem a dor da perda? Da minha perda? Não. Eu fechei os
olhos e ouvi a voz.
Créditos: www.katu.com
-Você
quer continuar com isso ou quer sair daqui? Ainda precisamos conversar.
-Tire-me
daqui, por favor. É muito sofrimento. Eu
era má, mas o sadismo estava me destruindo. Para onde vamos? O que
conversaremos?
-Nossa
conversa será longa, Srta. Hünderberg. Espero que possa compreender cada palavra
que disser e que cumpra nosso acordo.
-Sim,
estou pronta. Vamos.
Senti mais uma rajada de vento pelo meu “corpo”. Estava de volta a sala branca. Suspirei e
comecei a chorar pensando naquela cena,
naquelas pessoas, nos sofrimento. Os seres humanos bons sempre são os que mais
sofrem. Isso era desolador.
-Aquilo
que você viu é real. Você está em uma cirurgia de emergência, pois, dilacerou
uma parte de seu intestino e perfurou o baço. Os médicos estão tentando
consertar o estrago.
-Aquelas
pessoas não poderiam sofrer daquela forma! Minha tia está sozinha agora, eu era
a única sobrinha viva. Como você acha que ela vai levar a vida agora? Ela não
irá suportar! Eu olhava para baixo, triste.
-Bom,
se eu te disser que terá uma chance de consertar tudo isso, você aceitaria?
-Como
assim? Perguntei, confusa.
-Digamos
que eu posso fazer alguns ajustes. Você voltaria à vida e tentaria reparar os
erros do passado.
-Que
erros? Eu não cometi nenhum erro! Gritei.
-Tem
certeza? E aquelas pessoas que trabalham na sua agência? Por que elas são
tratadas daquela forma? Você pode ser a dona daquela agência, mas não é do
mundo. Por qual razão você agia assim? O que se passa dentro de ti, Amber?
Eu fiquei pensativa por alguns minutos e logo encontrei uma
justificativa.
-Bom, essa é a forma de me defender. Não quero que
se apeguem a uma personalidade carismática, não quero perder o respeito. Tenho
que ser durona, caso contrário, jamais, serei reconhecida. Todos sabem o modo
como trabalho. Explico para todos que assinam o contrato. Se não quiser, caia
fora. Minhas palavras foram duras. Falei
a verdade.
-Se
defender de que? De pessoas que se importam e que gostam de você? Todos te amam
Amber e conhecem sua história. Por que não permitir que possa amá-los também? Vamos
voltar ao mundo real. Quero que veja uma coisa.
-Se
estiver querendo me sensibilizar com cenas de quando eu era criança e de quando
meus pais eram vivos, não perca seu tempo. Eu me lembro de tudo e não preciso
disso. Disparei vorazmente, em revolta.
-Abra a
porta novamente. E dessa vez, seu emocional será testado novamente. Existe uma
bondade dentro de você, Amber. Você só está amargurada. Mas isso irá mudar.
Levantei –me e abri a porta. Dessa vez fui levada à casa de
alguém. Não reconhecia nada por ali, logo deduzi que não estava em um lugar
conhecido. De repente, vi Grace, nua, saindo do quarto em prantos. Aquela imagem me petrificou. Ela
esmurrou a parede e escorregou pelo chão do banheiro, abraçando os joelhos. Ela falava o
meu nome e pedia a Deus que não me levasse naquele momento. Ela se sentia culpada por ter pedido
demissão e falado algumas verdades no dia do acidente. Grace não se despediu de
maneira generosa e sentia um peso na consciência. Eu fiquei ao seu lado e
respirei fundo, olhando para cima. Suspirei e continuei olhando para ela, que
chorava sem parar.
Créditos: champagnatturma171.blogspot.com
-Eu não
quero mais ver isso, Por favor, tire-me daqui. A Grace não merece isso. Eu fui
estúpida com ela.
-Mas
você não admitiu seus erros. Ela chora por não ter sido a pessoa que ela
deveria ser naquele dia. Você não se sente triste por isso?
-Ela
pediu demissão. Eu só fiz a minha parte.
-Não,
não Amber. Você a deixou ir, sem analisar os motivos.
Aquilo era verdade e
me cortou como uma navalha. Eu havia sido a grande vilã e ela ainda chorava a
minha iminente morte?
-As
pessoas se permitem, Amber. Grace chora
mesmo sabendo quem você era. Ela tinha um carinho muito grande por você. Ela te
amava, como uma colega de trabalho, mas tinha medo de dizer, porque pensou que,
em algum momento você distorcesse esse sentimento.
Eu não sabia o que dizer e abaixei a cabeça.
-Eu
ainda não terminei. Quero te mostrar outra coisa. Venha.
Senti a rajada de vento e estava em outro ambiente. Uma casa
também. Vi alguém em pé assistindo a um canal de notícias, imóvel e muito assustado. Ele parecia não acreditar. Oh, Deus. Era o Harry. Respirei fundo.
-Pronto,
agora vai me culpar pelo o que eu fiz? Eu admito: fui cruel, mas era
necessário. Ele estava se esquecendo de quem eu era.
-Você
não precisa fazer as pessoas te lembrarem disso. Com a sua personalidade
incrível, elas sempre se lembrarão.
Voltei meu olhar para a cena. Harry tinha ido até o quarto e sentou-se na cama ao lado, debulhando-se em lágrimas. Após algum tempo, ele
se levantou, pegou a caixa e olhou as fotos que eu havia rasgado.Pude perceber que ele não só sentia mal pelo o que aconteceu comigo, mas também, pelo o que eu havia feito com ele, a algumas horas atrás. Ele tentava
conter o choro, mas era difícil.
-Essas
eram as únicas lembranças boas que ele tinha. E você não pensou duas vezes na
hora de destruí-las, não é?
-Não,
eu não sabia! Eu achei que fossem apenas lembranças materiais, nunca imaginei
isso! Meu Deus, o que eu fiz? Eu estava
desesperada, pois destruí o emocional de uma pessoa que eu mal conhecia.
-Para
ele, era muito mais do que isso. Agora, suas lembranças estão partidas ao meio.
E cabe a você, consertá-las ou construir
lembranças melhores.
-E como
eu faço isso? Disse eu, limpando uma lágrima.
-Logo,
logo você saberá.




Nenhum comentário:
Postar um comentário