Assim que cheguei e estacionei o carro, não avistei
movimentação nenhuma. Aquilo era um tanto
assustador. Só podia ouvir o vento carregando as folhas e um céu nublado, algo
bem tenebroso.
Olhei a
porta e estava fechada. Ninguém havia
chegado ainda? Como isso poderia ser aceitável? Comecei a contar até dez quando
me lembrei do real motivo de ainda estar viva. Procurei pela chave dentro
da bolsa e quando abri a porta, as luzes foram acesas e todos gritaram:
Uau! Por esta, eu não
esperava.
-É
muito bom de ter de volta Srta. Hünderberg. Como sentimos pelo que aconteceu!
Achamos que você nos deixaria para sempre naquele acidente! Como ficaríamos sem
você por aqui? Ella me abraçava fortemente, o que me incomodava bastante. Tentei
me controlar para não ser grosseira. Eu
tinha que mudar alguns conceitos. Tratar melhor as pessoas, respeitar o espaço
de cada uma e a personalidade também, embora isso me custasse um pouco de tempo
para digerir tudo.
James
trazia um pequeno bolo enquanto Harry segurava cartazes, feitos por ele mesmo,
me desejando “boas vindas”. Grace também estava feliz e sugeriu que eu cortasse
o bolo. Tivemos um momento interativo, o
que me deixou muito satisfeita. Acho que eu nunca havia permitido que algo
assim acontecesse. Mas dessa vez seria diferente. Eu seria mais flexível e
menos malvada. Eu nunca fui assim e meus pais nunca queriam que eu fosse desta
forma. Não havia razões para agir daquele jeito.
Conversamos
bastante e logo percebi que tínhamos muito trabalho pela frente. Dei a ordem de
voltarmos ao trabalho, mas antes, conversei com Harry e Grace sobre a minha
péssima atuação como chefe.
-
Minnermann e Styles eu queria dizer que sinto muito pelo modo como tratei
vocês. Fui injusta e cruel, principalmente com você, Harry. Gostaria de pedir
desculpas e como vocês sabem, são muito bem-vindos aqui.
Eles se entreolharam e sorriram de volta, assim como eu. Surpreendentemente, todos os presentes vieram ao meu
encontro e me abraçaram, deixando-me sem reação. Juntei-me a eles e suspirei.
Não podia chorar naquele momento. Entretanto, a verdade é que, estou
vulnerável. Bastante. Todos os sentimentos repreendidos vinham à tona. É como
se eu tivesse me livrado daquela postura rígida, daquela máscara. Eu estava
muito sensível a tudo. E lógico que isso foi perceptível.
-Eu
entendo você Srta. Hünderberg. É normal se sentir assim. Você passou por
momentos muito delicados. Pode se abrir conosco. Nós sabemos por tudo o que
você passou. Harry falava aquilo com tanta confiança e sinceridade que me confortou.
Eu os abracei e disse entre soluços:
-De
hoje em diante, não quero que me chamem mais de Srta. Hünderberg. Podem me
chamar de Amber, somente Amber. E quero repartir algumas responsabilidades com
vocês. É claro que isso não vai acontecer agora, mas quero que saibam por mim,
hoje. A partir das próximas semanas, vocês terão acessos a assuntos da empresa
e poderão solucionar problemas por vocês próprios, sem a minha autorização.
Isso seria ótimo, não seria?
-Seria,
MUITO! Disseram os dois, em uníssono.
Eles me agradeceram imensamente e quando Grace deixou a
sala, Harry se aproximou de mim e me perguntou sobre o planejamento da campanha
que eu rejeitei a um mês atrás.
-Seria
muito se eu pedisse para rever aquele planejamento da campanha? Eu sei que não
era tarefa minha, mas eu achei a parte da criação tão sem graça! Elaboraríamos um
VT incrível! Nós não a desapontaremos Amber! Eu prometo! Disse ele, unindo as
mãos em tom esperançoso, como se estivesse implorando.
-Acho
que podemos pensar no assunto, não é? Eu
não me lembro o porquê de ter feito aquilo, mas, lamento muito. Redija o
seu texto novamente e veremos o que podemos fazer, certo? Disse eu, sorrindo.
Ele deu uma risada de alegria, beijou o meu rosto e ajeitou
os óculos. Nossa, eu não esperava por
isso, muito menos, pela reação do meu corpo que entrou em estado de erupção. O
que estava acontecendo comigo? Apaixonada eu não posso estar, não mesmo!
Os nossos olhares se encontraram e de repente, ele ficou
sério, admirando o meu rosto, segurando o meu queixo.
-Eu
sabia que você não era daquele jeito. Eu tinha esperanças que você mudasse e
foi exatamente o que aconteceu. Só Deus sabe o quanto eu agradecerei por ele,
hoje à noite.
Eu continuei o
observando assustada. Ele sorriu novamente, soltou meu queixo e piscou o olho,
saindo da sala. Céus, o que foi aquilo? Esse garoto está dando em cima de mim,
que tenho idade para ser a tia ou a mãe dele? Não, isso é uma pegadinha, só
pode.
Eu
olhei em volta, tentando trazer a minha concentração de volta. E vi o envelope com a foto, lembrando – me
de tudo o que eu deveria fazer. Foi quando Grace bateu à porta.
-Entre,
por favor.
-Olá
Amber! Estou aqui com duas propostas para a produção do VT de dois clientes,
muito interessados em nossos serviços. Eu as imprimi e trouxe para que pudesse
vê-las com atenção.
-Ok,
pode deixar aí em cima. – Disse eu, distraída, olhando para a foto.
Grace já se retirava quando a interrompi.
-Grace,
você sabe o que aconteceu com meus pais, não sabe? Indaguei, pensativa.
-Sua
tia Zoe me contou sobre o acidente, mas foi só. Ela não entrou em detalhes.
-Meus
pais tiveram uma discussão porque meu pai tinha um relacionamento paralelo ao
casamento. A “intrusa” era uma estagiária que trabalhava aqui, há alguns anos.
Eu queria saber se você conhece algo sobre esse assunto. Digo isso, porque você
é a mais antiga de todas as funcionárias. Pode saber de alguma coisa que tenham
escondido de mim. Enfim, você sabe que...
-Não
sei de nada Amber. Não posso te ajudar! Disparou automaticamente.
-Tudo
bem, Grace. Pode ir. Eu nem sei, porque perguntei isso. Desculpe.
Ela assentiu e saiu da
sala estranhamente. É como se soubesse de alguma coisa e não quisesse me
contar. Aquilo me instigou. E agora sim, Grace era uma das minhas respostas. Eu
só precisava descobrir uma forma de conseguir a informação. Hora de arquitetar
meus planos. Dessa vez, do jeito certo.




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