Estacionei o carro e segui para a entrada da agência. Na
recepção, deparo-me com Elaine sentada, com uma das mãos sobre o queixo, como
se estivesse aguardando alguém. E esse alguém era eu, lógico.
-O
novato de óculos já chegou, Srta. Hünderberg. Devo chamá-lo?
Eu fechei os olhos e passei a mão na testa. Ai, que droga eu
havia esquecido completamente sobre a admissão de Harry. Não havia impresso os
papéis necessários. Não fiz absolutamente nada do que costumo fazer quando
recebo novos funcionários. Eu precisava corrigir aquilo rápido. Ao olhar para
Elaine novamente, olhei que a cadeira de Grace estava vazia. Ela já deveria ter
chegado.
-Elaine,
por onde anda sua colega Grace? Ela não veio?
-Não sei
Srta. Hünderberg. Não tenho contato com Grace desde ontem. Ela disse que iria
resolver uns problemas e não voltou. Elaine disparou cada palavra sem fitar-me,
olhando para o computador.
Aquilo me deu uma leve irritação. Como ela se atreve a não
comparecer ao serviço? Ela é funcionária minha e me deve no mínimo, uma boa
justificativa!
-Bom,
quando ela chegar, peça a ela que vá à minha sala. Preciso conversar com ela
imediatamente, disse eu, passando a mão no cabelo, seguindo para minha sala.
-E o
que eu faço com o novato de óculos? Perguntou ela, levantando-se, esperando uma
reposta.
-Diga a
ele para vir até minha sala. Vou explicar algumas regras da agência e como será
executado o trabalho aqui.
Elaine assentiu e segui para minha sala. Ao chegar, joguei
minha bolsa contra uma cadeira e suspirei. Tenho duas coisas para me preocupar:
a admissão de Harry e o sumiço de Grace Minnermann? Se ela não aparecer daqui a
algumas horas, terei que entrar em contato com a polícia. Enquanto arrumava a
papelada sobre a minha a mesa, Harry chegou à porta.
-Posso
entrar? Perguntou ele, desconfiado, olhando para os lados.
-Pode
sim. Sente-se. Tenho que te explicar algumas coisas antes de apresentá-lo aos
seus colegas. Eu estava nervosa porque estou preocupada e me sinto responsável
pelo o que fiz. Tentei manter o foco e só desejava para que aquilo se acabasse
logo.
Harry sentou e prestou atenção a cada instrução que eu dava.
Tentei explicar o organograma da agência e qual seria sua função aqui dentro,
apesar de ter certeza de que ele sabia muito bem o que aconteceria ali. Para
minha surpresa, ele fora simpático e tentou mostrar presteza sempre que
necessário. Ao final, fui apresentá-lo aos nossos colegas de trabalho. Apesar
dos olhares estranhos sobre seu estilo, as pessoas pareciam satisfeitas.
Apresentei a ele o local de trabalho e Harry ficou encantado, pois teria sua
própria sala e disse que tinha inúmeras idéias para redecorar a sala.
-Eu
tenho idéias incríveis e adorarei trabalhar aqui. Amanhã começo a trazer minhas
pastas de arquivo. E colocarei fotos maravilhosas que tirei quando viajei para
o Japão. Você vai adorar, eu tenho certeza e...
-Desculpe
te interromper, Harry, mas prefiro que a decoração permaneça assim. Eu quero
seguir um padrão e você deve se encaixar nesse quadro, certo? Eu não disse nada
sobre suas roupas porque acho que gosta de se vestir assim, portanto, esta é a
única coisa que permitirei neste primeiro tempo. Sem fotos, sem pastas, sem papel
de parede. Eu quero que fique da forma como está e se não se sentir à vontade,
ainda está em tempo de desistir, disse eu, secamente, fitando-o.
Ele me olhou de volta e senti seus olhos marejarem. Ele
tirou os óculos e fechou os olhos, tentando limpar as lágrimas. Ah, não! Ele
estava chorando?
-Por
que você está chorando? Perguntei, colocando as mãos na cintura.
-Eu
sempre tive uma sala personalizada. Meus chefes nunca implicaram com nada.
Essas fotos desta viagem significam tudo para mim e eu realmente queria...
-Olha
só, garoto, eu não tenho tempo para ouvir o quanto você ama as suas fotos
idiotas ou o quanto você ama personalizar um local, certo? Se não quiser, caia
fora. A fila sempre anda! Senti que minhas palavras cortaram qualquer interação
que havia entre nós, mas, não agüentei, eu não tenho tempo e muito menos
paciência. Ainda mais com um nerd que se faz de sentimental.
Ele ficou estático e continuou me fitando, sem acreditar.
Ele sentou na cadeira e desejei boa sorte. Entreguei uma pilha de planos de
campanha, para que ele avaliasse. Fechei a porta e senti meu coração apertar.
Abaixei a cabeça e segui para a minha sala.
Tentei
ficar o maior tempo possível ali, sem receber nenhuma visita. E era assim que
eu queria. Não quero que ninguém venha me atormentar. Tentei ligar para a Grace,
mas, sem sucesso. Liguei para a recepção, também sem novidades. Aquilo começava
a me preocupar e eu me sentia eternamente culpada. O que eu fiz? Como
consertarei as coisas? O desespero me consumia em vida e comecei a chorar. Ao
ouvir o celular tocando, engoli o choro e tentei parecer controlada. As
lágrimas borraram toda a minha maquiagem. Atendi tentando parecer bem.
-Srta.
Amber Hünderberg, em que posso ajudar? Perguntei eu, entre soluços.
-Oi
Srta. Hünderberg, sou eu, a Grace.
Aquilo parecia música para os meus ouvidos. Saltei da cadeira
instantaneamente.
-Grace,
por onde você andou? Estive muito preocupada! Como você está?
-Srta,
não há motivos para se preocupar. Eu estou bem. Eu sei que esse modo não é o
mais correto de se fazer, mas, devo lhe dizer que não trabalharei mais para a
sua agência. Grace manteve o seu tom decidido e eu perdi o chão, sentindo uma forte tontura e minha visão escureceu por alguns segundos.
-O QUÊ?
COMO SE ATREVE A FAZER ISSO COMIGO, MINNERMANN? VOCÊ NÃO PODE SAIR ASSIM, A
HORA QUE BEM ENTENDER. EU PRECISO DE VOCÊ! Gritei eu, sem me importar em chamar
a atenção.
-Você
não manda em mim, Srta. Hünderberg. Não pode me dizer o que fazer. Eu não quero
trabalhar com a sua equipe. Percebi que estou perdendo tempo e a senhora não
tem condições de liderar uma equipe. A senhora é fria, rude e mal-educada. Só
pensa em si mesma. Que tipo de pessoa quer crescer em um lugar assim? Eu não
quero. Amanhã irei para prestar minhas contas e assinar todos os papéis de
minha demissão. Até logo.
Aquela não se parecia com a Grace que eu conhecia. O que estava acontecendo? Eu tenho culpa por tudo isso? Antes que pudesse esbravejar algo, Grace desligou o
telefone. Como ela tem essa coragem? Ela acabou de me afrontar e quando fico
assim, é porque terá volta. Ela poderia ter se demitido, mas não da forma que
fez. Eu precisava pensar em algo, logo.


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