Sim, eu sou
chata e mandona. No meu emprego não tem como ser de outra maneira. Se eu quiser
entregar os trabalhos para os clientes no prazo correto, eu tenho que exigir
isso da minha equipe. Eu sei que sou odiada por muitos, mas não me importo
mais. No passado, a minha consciência sempre pensava quando era grosseira com
os colegas de trabalho. Eu chegava em casa muito triste, com o pensamento de
que era a pior pessoa existente do universo. Considerava-me impiedosa e cruel.
Ao longo do tempo, percebi que não haveria outra forma: se você quer ser levado
a sério e quer que tudo funcione corretamente, tem que estabelecer limites,
chamar a atenção ou até mesmo demitir funcionários. Essa é a parte mais triste
de todas, mas às vezes, se faz necessário. Meu nome é Amber Hünderberg, sou
publicitária e herdei a agência dos meus pais quando eu tinha dez anos, em
virtude de um trágico acidente automobilístico. Fui criada pela minha tia, Zoe Übermann,
sou completamente racional, ignorando qualquer sentimento de empatia e estou
indo para mais um dia de trabalho. Como não estou me sentindo bem, quem “pisar
na bola”, sairá do jogo.
O celular
tocava sem parar. Eu estava irritada, minha cabeça doía e a claridade do sol me
incomodava. Qualquer barulho me tirava do sério e o toque do meu aparelho
telefônico estava fazendo justamente isso. E foi assim que eu o arremessei
contra o banco de trás e percebi que o barulho havia cessado. Ainda bem.
Cheguei à
agência em mais um dia estressante. Hoje eu seria completamente indelicada e
tenho certeza que alguém vai me desapontar. Eu não sou uma pessoa negativa,
porém sou realista. Enxergo as reais possibilidades de algo dar certo ou não, e
certamente não perco tempo sonhando acordado. Isso não é para mim. E acho que
grande parte das pessoas deveria parar de fazer isso. Não existe nada mais
frívolo e entediante do que ouvir os sonhos das pessoas. Eu não quero saber,
isso não me interessa. E os meus colegas de trabalho sabiam disso. Por isso,
ninguém questionava o que fazia com que o dinheiro que ganhava, ou com quem
viajaria para algum lugar do mundo. Vida pessoal não entra na minha agência.
Peço a todos os funcionários que sejam racionais e que evitem falar sobre algo
que não esteja relacionado aos trabalhos desenvolvidos aqui. Para minha
alegria, ninguém contestou.
Quando
coloco meus pés no local, todos me olham espantados. Eu estava horrível. Meus
olhos estavam inchados e com profundas olheiras. Infelizmente, a maquiagem não
cumpriu o seu trabalho, o que me obrigava a jogar fora tudo aquilo que usava e ir
atrás de uma mais eficiente. Até lá, utilizei o corretivo que estava dentro
da minha bolsa e passei um batom vermelho, para disfarçar a péssima aparência.
Hoje eu me sentia uma hipócrita. Cobrava de todos uma impecável apresentação ao
chegar ao trabalho e quando se trata de mim, eu não cumpro aquilo que cobro dos
outros? Ah, aquilo me deixava triste. Eu quero ser o melhor exemplo do local,
afinal, eu sou a dona. Tenho que dar o melhor exemplo daquilo que é correto e
aceitável. Ao passar pelas recepcionistas falei logo:
-Hoje
não é um bom dia, portanto, não me perturbem, caso contrário, ficarão sem
emprego. Entendido?
Grace Minnermann assentiu com a
cabeça enquanto Elaine Harris me encarou com o olhar desafiador. Isso me gerou
um desconforto, pois senti, que ela queria falar algumas verdades. Mas eu não
queria ouvir, portanto a ignorei e segui para o meu escritório. Grace veio
correndo atrás de mim, com uma pasta. Ao olhá-la logo lembrei: “Ah, hoje não,
estou sem cabeça para isso”.
-Senhorita
Hünderberg, os currículos da entrevista de hoje foram selecionados. Alguns
candidatos já estão na sala de espera. Posso chamá-los? Perguntou,
cuidadosamente.
-Sinceramente
Grace, eu não estou com paciência para entrevistas. Cancele e marque para outro
dia. Disse eu, procurando algumas pastas dentro das gavetas.
-Mas,
senhorita Hünderberg, alguns deles vieram de muito longe. Enfrentaram algumas
horas de viagem para chegar a tempo. A senhorita não acha que...
-Grace,
por favor, remarque-os para outro dia. Não discutirei isso com uma
recepcionista. Quem manda nisto aqui sou eu, ou você se esqueceu?
-De
forma nenhuma. Conheço meu lugar aqui dentro. Só acho que a senhorita deveria
reconsiderar esse pedido e ter um pouco de empatia por aqueles que a esperam.
Mas eu sempre me esqueço que a senhorita não se importa, não é?
Aquela conversa estava me
deixando muito, mas muito irritada. Grace estava em uma tênue linha entre a
demissão ou uma resposta à altura. Respirei fundo. Mais uma vez. E desisti de
mandá-la embora. Poderia me arrepender dessa atitude mais tarde. Olhei para
ela, esbocei um meio sorriso e disse:
-Como
quiser, Grace. Vamos entrevistá-los. Gostaria que trouxesse uma cadeira para ir
anotando informações relevantes sobre os candidatos. Ao final de todas, eu
analisarei uma por uma e decidirei quem trabalhará aqui dentro.
Grace deu um imenso sorriso de
gratidão. Eu não acredito que estou fazendo isso. Cedi a um pedido de um
funcionário?! Essa não era eu. Ou talvez fosse uma Amber mais piedosa, menos
inescrupulosa. Vamos relevar e permitir. Só desta vez. Os candidatos começaram a formar uma fila em
frente à minha sala. Grace sentou ao meu lado e começou a anotar aquilo que eu
julgava importante.
Minha nossa. Já estamos há duas
horas aqui dentro e nenhum candidato possui potencial para a vaga. Aquilo
estava me deixando nervosa e aflita. Às vezes, eu tinha vontade de gritar com todos
eles, chamá-los de incompetentes e inúteis. Estavam fazendo perder meu precioso
tempo conversando baboseiras, enquanto poderia estar em uma reunião com
clientes, revisando alguns briefings,
elaborando campanhas e conceitos, injetando dinheiro em minha agência. Porém,
nada daquilo estava acontecendo e a minha eficiente recepcionista era a grande
culpada. A cada resposta inútil que o candidato dava, eu a fuzilava com os
olhos e balançava minha cabeça. Ela percebeu que eu estava desapontada e notoriamente
indignada. Quando o último candidato estava prestes a entrar, eu fechei a porta
e olhei para Minnermann, séria.
-Grace,
acho que devemos poupar o nosso tempo e o desse indivíduo que nos aguarda.
Nenhum deles tem o padrão que eu necessito. Vamos dispensá-lo, certo? Ele não é
digno do meu tempo. Estou farta e acho que devo ligar para alguns clientes,
revisar roteiros, peças, enfim... Tudo aquilo que me faça esquecer dessa
palhaçada toda! Eu olhava para baixo, abatida.
Grace ajeitou o penteado e me
encarou por alguns minutos.
-Mil
desculpas, senhorita Hünderberg. Nunca pensei que fosse desapontá-la dessa
forma. Mas acho que devemos entrevistá-lo. Ele é o último candidato. Quem sabe
não seja quem estamos procurando? Além do mais, o fizemos esperar esse tempo
todo por nada? Ela parecia esperançosa.
-Isso
é problema dele, não meu. Além do que, todos os candidatos foram uma grande negação
e não acho que teremos surpresas por hoje. Já vi o suficiente e estou saturada.
Por que eu lhe dei ouvidos, Grace? Estas são as horas em que me arrependo de
dar atenção à pessoas indevidas. Lamentável.
-Então
eu devo dispensá-lo e dizer o que? Perguntou ela, com um semblante triste.
-Diga
a ele que não preciso de mais ninguém. Farei um ajuste no quadro de
funcionários, disse eu, secamente, analisando algumas planilhas sobre a mesa.
-Senhorita
Hünderberg, você tem certeza? Perguntou mais uma vez.
-Tenho
Grace. Sem mais delongas, por favor. Aquilo se transformava em uma eternidade e
eu estava impaciente.
Antes que Grace pudesse sair da
sala, ouvimos alguém bater a porta. Ela abriu rapidamente e para nossa
surpresa, era o último candidato a ser entrevistado, aguardando por sua vez.
-Eu
sou o próximo não é Senhorita Minnermann? Perguntou ele, ajeitando os óculos e
olhando para o crachá que portava o nome e sobrenome da recepcionista.
Grace
olhou para mim rapidamente esperando uma resposta. Aquele rapaz havia me pego
de surpresa. Eu não podia passar uma imagem negativa de minha empresa. Ele
poderia repassar para outros contatos que poderiam ser interessantes em um
futuro próximo. Todos tinham que ouvir o melhor de mim. Sempre.
Olhei para o garoto, dei um meio
sorriso e o convidei para entrar. Ele era desajeitado, tinha um perfil daqueles
nerds típicos de filmes: usava um óculos que possuía uma armação obsoleta,
digna de uma lata de lixo, uma camisa azul de mangas longas com uma gravata
borboleta bastante antiquada, calça de linho marrom e sapatos pretos. Eu
o olhei de cima a baixo e disse:
-Vamos
começar?
Estereótipo da personagem Grace Minnemann
Créditos: www.papeisdeparedehd.com
Autor: Desconhecido


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