Eram três e meia da manhã quando acordei. Senti um grande
mal-estar acompanhado de fortes calafrios. A janela estava aberta. Fechei-a
rapidamente, coloquei meu casaco, calcei minhas sandálias e fui até o banheiro.
Lavei o rosto e percebi que estava pálida. Senti uma tontura muito forte e me
segurei nos arredores da pia para manter o equilíbrio. O que estava acontecendo
comigo? A minha visão estava ficando turva e eu não conseguia me levantar.
Abaixei a cabeça e fiquei alguns segundos assim. Dizem que ajuda e realmente
funcionou. Melhorei o suficiente para sair do banheiro e ir para a cama. Deitei
de barriga para cima e respirei fundo. Eu estava remoendo todos os
acontecimentos até então: a demissão repentina de Grace, a entrada de Harry e a
maneira como ele se comportou em seu primeiro dia. E ainda temos a tia Zoe, que,
às vezes não fala coisa com coisa e me assusta, principalmente, em relação aos
meus pais. Tentei pensar em outras coisas, mas, não consegui, meu estômago
estava revirado e respirava fundo para não vomitar naquele momento. As horas se
passaram e já eram seis da manhã quando tentei cochilar. Tarde demais. Era de
hora de trabalhar. Como sempre, estava com olheiras tão fundas que o corretivo
não conseguiu cobrir as imperfeições. Atirei-o contra o espelho irracionalmente
e acabei ganhando sete anos de azar. Que maravilha. Procurei por algum batom
apressadamente dentro da bolsa e não achei nenhum. Ao abrir o armário, acabei
esbarrando em um vidro de esmalte vermelho que havia comprado em uma viagem
especial. Ele se espatifou no chão, derramando todo o líquido pelo piso branco.
Peguei alguns papéis-toalha e limpei rapidamente. Peguei as chaves do carro e
não tive tempo para comer, nem para falar com a tia Zoe. Quando eu estava
dentro do carro, já preparada para seguir, ela abriu a porta e fez um gesto de
despedida. Eu não sei direito o que vi, mas ela parecia chorar. Acenei de volta
e segui para a agência. Quando entro pela recepção, encontro Grace sentada, com
um vestido florido, segurando uma pasta. Senti um frio percorrer toda a minha
espinha dorsal. Tentei disfarçar um sorriso, mas, não convenceu muito.
-Bom
dia, Grace Minnermann, veio assinar sua demissão tão cedo? Perguntei com uma pontada
de ironia.
-Sim,
não quero perder tempo com coisas que não me levarão adiante. Grace retribuiu a
ironia, dando um leve sorriso.
-Bom,
então não vamos perder mais tempo. Acompanhe-me, por favor, vamos conversar com
a gerente de Rh e ela resolverá tudo! - Disse eu, dirigindo-me ao setor do Departamento
Pessoal. A gerente se assustou, assim que me viu.
- Posso
ajudar Srta. Hünderberg? Perguntou curiosa.
-Gostaria
que você ajudasse a Srta. Minnermann com o pedido de demissão. Falei secamente.
Ela não entendeu e franziu o cenho. Eu expliquei que Grace
já havia falado comigo que não desejaria trabalhar na agência. Assim que deixei
tudo esclarecido, deixei a sala, engolindo o choro e as lágrimas. Eu não queria
que Grace saísse daquela forma. Ela era tão útil aqui dentro. Como eu sentiria
dela. Eu nunca disse isso para ninguém, mas, Grace é como se fosse uma irmã.
Durante esse tempo todo, ela era o meu confessionário. Sempre me ajudava quando
tinha dúvidas ou precisava resolver algo. Grace faria muita falta. Não sei o
que será de mim.
Estava perdida nos meus pensamentos quando Grace bateu à
porta.
-Posso
entrar Srta. Hünderberg?
-Pode
sim, Grace. Veio se despedir? Ou rir da minha cara? Está satisfeita ao ver a
minha derrota? Limpei as lágrimas e exibi minha indignação.
-Eu vim
para agradecer por tudo. Muito obrigada e espero que encontre alguém melhor do
que eu. Não tenho condições de continuar aqui. Cansei de levar ordens suas e a
forma como você se refere aos empregados e colegas é muito rude e eu não gosto
disso. Por isso estou saindo. Grace estava séria, fitando-me nos olhos.
-Grace
eu NÃO PRECISO DE SEU MÍSERO AGRADECIMENTO. Portanto, deixe essa sala sem se
humilhar. E VOCÊ CONHECE A FORMA COMO TRABALHO. DEIXEI ISSO BEM CLARO QUANDO TE
ADMITI. Peço que se retire antes que eu diga algo bastante desagradável. Eu
cruzei meus braços e suspirava, tentando
me controlar. Meu corpo estremecia de ódio e tristeza.
-Um dia
você vai entender Amber. Esse seu remorso não adiantará de nada. Por que ser
tão fria? As pessoas te admiram de qualquer jeito. Você não precisa disso, não
mesmo. Grace olhou para mim triste com os olhos marejados e fechou a porta
silenciosamente.
Eu
encarei aquilo incrédula. Como existem pessoas tão atrevidas? Ela não tem esse
direito de sair falando de remorso, ela nem sabe o que eu passei durante a
minha vida inteira. Fiquei órfã aos dez anos. Não tive uma vida fácil.
Trabalhei muito, em vários lugares, os
mais hostis possíveis. Quem era ela para dizer isso?
A raiva me consumia em vida. Joguei todos os papéis no chão
e deixei que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Jasmine bateu à porta
desesperada. Engoli o choro e tentei parecer compenetrada no que estava
fazendo. Ela me chamou para irmos até a sala de Harry, porque ele estava
“tentando revolucionar a agência”. Acompanhei Jasmine e assim que cheguei à sala,
todos se entreolhavam. Jasmine e Ella olharam para mim com pena e pediram que
eu fosse razoável. Mas aquilo me irritou muito, muito mesmo. Não teve jeito:
descarreguei todo o meu ódio e rancor no jovem e as conseqüências foram
tristes.
-Você é
surdo ou o quê? Já não havíamos falado sobre isso antes, Styles? -Disse eu, com
a mão na cintura, revirando os olhos.
-Sim,
mas eu pensei que pudesse mudar sua opinião... – Disse, olhando para baixo. – Não vê como
isso tudo é incrível? Esse papel de parede, essas fotos! Eu sei que não tive
sua aprovação, mas, agora, não consegue ver como isso é maravilhoso? Ele
abraçava a si mesmo, gerando uma sensação de pena por todos, menos por mim que
o encarava séria e furiosa.
-Nossa
realmente é tudo muito lindo! - Analisei eu, ironicamente, desfazendo a postura
anterior. - Seria uma pena enorme se eu fizesse algumas “mudanças” não é mesmo?
Antes que ele dissesse algo, rasguei todos os papéis de
parede, de fora a fora, arranquei todas as fotografias do mural, derrubei itens
pessoais e destruí alguns dos planejamentos que ele tinha elaborado. Ao final,
soltei um sorriso maquiavélico, em meio às lágrimas, que eu já não conseguia
controlar.
-Pronto!
O que achou da nova decoração? Minha voz exalava sarcasmo. Meus cabelos estavam
desarrumados e a pouca maquiagem que usava, completamente borrada. Todos
estavam diante de uma mulher que nunca tinham visto. Uma louca, na verdade.
Ele olhava assustado, petrificado com a minha atitude. James
olhou para baixo e disfarçou o desapontamento. Ninguém falava nada. Todos se
entreolhavam e finalmente, depois de alguns minutos me encarando, Harry não
disfarçou as lágrimas e a frustração. Ele se ajoelhou, tirou os óculos e
tentava juntar os pedaços do que restou em caixas, tomando muito cuidado para
não misturá-las. Ele me encarava, incrédulo. Eu o avisei sobre as regras. Regras são regras
e devem ser obedecidas. Não me arrependi disso, em nenhum momento. Quando todos
se retiraram, ele veio até mim e por incrível que pareça, não demonstrava ódio,
mas pena, o que me despedaçou por dentro.
-Eu não
sei exatamente o que aconteceu com você, mas não consigo te odiar. Só sinto pena.
Desculpe-me pelo transtorno. – Dizia ele, sério, encarando-me profundamente.
- Quem
deveria sentir pena era eu. Acho que não preciso mais de você por aqui. Já me
causou problemas demais. Pode recolher as suas coisas e ir para casa.
Conversamos sobre sua demissão depois. Eu estava tentando parecer forte e minha alma clamava por benevolência. Não dei chance.
-Eu já
esperava por isso. Tenha um bom dia. E conversaremos amanhã, sem problemas. Ele
soltou um suspiro, olhando para cima.
Harry
deixou a sala, enquanto fiquei por alguns minutos. Eu puxei uma cadeira e me
pus a chorar. Fiquei ali por algumas horas, pensando no que eu tinha me tornado.
Grace e Harry... Eles mereciam isso? Por que eu não conseguia aquele sentimento
de mim? Eu olhava em volta e me sentia perdida.
Algumas
horas depois, fui para a minha sala e montei algumas planilhas, tentando
esquecer o acontecido mas tudo o que eu fiz, foi em vão. Não conseguia pensar
em nada. Resolvi encerrar as atividades
e dispensar a equipe quando Elaine veio até mim e disse:
-Amanhã
será um novo dia, Srta Hünderberg. Tente descansar.
-Eu o
farei, Elaine obrigada.
Elaine saiu e eu fui a última a deixar o local. Ao entrar no
carro, fui respirando fundo, tentando dirigir. Não adiantou muito. Cada cena se
repetia em minha cabeça e o meu outro lado tentava pensar em outra coisa. Eu
estava apavorada. Não sabia se parava o carro ou se continuava. Não conseguia
enxergar o que via. Minha visão estava embaralhada. O celular começou a tocar. Era a
tia Zoe. Eu o ignorei em meio às lágrimas. Foi quando vi uma luz muito clara em
minha direção. Infelizmente, ele me acertou em cheio e arrastou meu veículo por
200 metros. Eu olhava zonza e via sangue por todos os lados. Uma parte do meu
corpo parecia ter sido dilacerada ou algo assim. Ouvia uma voz gritando desesperadamente
por ajuda. Minha visão estava embaçada eu tentava falar com alguém, mas, eles
me pediam para ficar quieta. “A ajuda
está chegando” diziam eles. Eu tentava me mover, mas, senti que algo que
segurava, me prendia. Um senhor tentava conter minha agitação segurando minha
cabeça, dizendo que tudo ficaria bem, mas eu estava perdendo contato. Sua voz
estava longe, cada vez mais longe. Essa era a morte? Ela estava me rondando
esse tempo todo? Finalmente, algo bom iria acontecer. Eu fechei meus olhos e
descansei em paz.
Créditos: www.katu.com

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