A semana foi muito corrida. Mal
tive tempo de resolver as pendências da agência. A ajuda de Grace foi
satisfatória (eu estou dizendo isso mesmo?) e me salvou muitas vezes. Apesar de
ser rude e mal-humorada eu agradeci a ela pela ajuda, pois foi muito útil. Mas
assim que a sexta-feira chegava, a minha decisão tinha que ser tomada: eu
precisava escolher o novo candidato para a vaga de planejador, já que Sam
viajou e nunca deu notícias. Eu sempre achei um absurdo, uma falta de respeito
comigo e com os outros funcionários, porém ele não se importou.
Grace
entrou na sala e parece que estava lendo a minha mente. Seus olhos claros
brilhavam e seu sorriso estava estonteante.
-Senhorita
Hünderberg, hoje a grande escolha deve ser feita. Já tem algum candidato
escolhido?
-Grace,
eu farei a minha escolha e ninguém interferirá nisso. Todos vocês ficarão
sabendo daqui a algumas horas. Convoquei todos para uma pequena reunião, um
pequeno encontro para ser mais precisa – Falava eu, examinando as planilhas,
fazendo algumas alterações necessárias para que James as corrigisse.
-Desculpe-me
Srta. Hünderberg, eu não quis incomodar. Acho que me empolguei demais, disse
ela, em um meio sorriso.
-Pois
peço que se contenha. Afinal, não quero funcionários desajustados na minha
agência. Agora eu gostaria que me deixasse trabalhar. Tenho alguns roteiros
para dirigir e enviar essas planilhas ainda hoje. Eu olhava secamente para ela,
sem demonstrar nenhuma expressão.
Grace olhou-me triste e fechou a
porta. Naquele momento, eu pude sentir que havia passado dos limites. Pelo modo
como me olhou é certeza que se isolou no banheiro e se desatou a chorar. Grace
era sensível e qualquer palavra rude a machuca muito. Às vezes, eu me esquecia
disso. Todos toleravam a minha antipatia, mas Grace já estava sendo forte há
algum tempo. É normal que queira explodir em lágrimas. Eu não a culpo, mas
também não correrei atrás dela para limpar suas lágrimas e lhe dar um “abraço
de amiga”. Eu não sou disso, não consigo lidar com meiguice. Não nasci para
coisa, entende? É o meu jeito.
No
meu momento mais crucial, recebo uma chamada vinda da recepção. Aquilo me
deixou desconcertada. Será Grace? Será que ela quer dizer algo importante? Fui
tomada por dúvidas e o deixei tocá-lo por três vezes. Na quarta eu respondi:
-Srta.
Hünderberg falando, quem gostaria?
-Sou
eu, Srta. Hünderberg, a Elaine. Tem um senhor aqui embaixo chamado Thomas
Lippmann. Ele está aqui porque tem uma reunião com a senhora. Posso confirmar e
pedir para subir?
-Sim,
Elaine. Faça isso depressa e o acompanhe durante todo o trajeto. Não quero que
ele se perca dentro deste local, certo?
-Certo.
Srta. Grace ainda não voltou para a recepção. Devo reportar para a senhora?
-Ora,
azar o dela. Eu não quero saber o que ela anda fazendo. Grace tem demostrado
algumas atitudes que não me agradam nem um pouco. Não se preocupe com ela. Uma
hora, ela voltará.
Elaine ficou em silêncio e
desligou. Aquilo soava como um grande talho dentro da minha alma. Eu fiz algo
errado, muito errado. No fundo, eu sentia que deveria descer as escadas
correndo até ao banheiro, encontrar Grace e dizer a ela o quanto eu sentia pelas
palavras que disse. Mas, a racionalidade falou “mais alto.” Engoli o choro e me
preparei para encontrar o Sr. Lippmann.
O
Sr. Lippmann chegou acompanhado por Elaine que fez seu caminho de volta assim
que me encontrou. Fomos para a sala central e discutimos bastante até chegarmos
a uma conclusão sensata. Trocamos algumas “farpas”, porém, nada sério. Terminei
o dia chamando todos os presentes na agência para o grande anúncio. Quando
disse que se tratava do novo planejador, todos ficaram esperançosos e pude ver
sorrisos para todos os lados. Eu sinceramente não consigo acreditar. Como estas
pessoas podem estar felizes? Estou contratando um concorrente deles. Cada um
fará o seu trabalho como equipe, mas, ele pode ser muito bom e se provar que
tem habilidades para outras áreas, eu poderei dispensar muitos funcionários,
incluindo esses que estão tão esperançosos. Então, por que essa animação toda?
Eu não gostaria de contratar ninguém. Todos aqui estão fazendo o seu trabalho e
um estranho no ninho poderia arruinar tudo. Entretanto, venho sido muito
cobrada pelos diretores de redação e criação, além do pessoal da mídia, estes
sim, tem sido insistentes. Olho para o relógio e vejo que todos estão
presentes, exceto Grace. Sinto meu coração apertar, mas disfarço o nervosismo e
começo o meu pequeno discurso:
-Boa
tarde, meus caros. Como todos vocês sabem, hoje é o dia da decisão. Estou aqui
com o nome do candidato escolhido e espero ter feito a decisão certa. Que ele
possa ser capaz de orientá-los, auxiliá-los em todo e qualquer obstáculo a frente
de vocês. Acompanharei todos os passos do novo planejador e farei uma rígida
inspeção sempre que necessário. Devo atentá-los que a obrigação de vocês não é
somente honrar a sua ocupação como também reportar qualquer problema que possam
ter com este novo planejador, ok? Alguma dúvida?
A
sala estava em silêncio. Todos estavam ansiosos, e pude ver isso em cada
semblante:
-Sem
mais delongas vamos ao nome do escolhido: O novo planejador será Harry Styles.
Todos
olhavam surpresos. Muitos fizeram franziram o cenho e se entreolhavam confusos.
Aos poucos, alguns deixavam a sala, sem demonstrar expressão de alegria. Eu não
estava entendendo mais nada. Ora, não era isso que eles queriam?
Pedi
a gerente do Rh, que entrasse em contato com o rapaz o quanto antes, para que
providenciasse todos os detalhes da admissão.
-Segunda-feira,
eu quero esse garoto aqui. Parece que a escolha não agradou muito, não é?
-As
pessoas não o conhecem, Srta. Hünderberg. Isso basta para nós. Porém, tudo pode
mudar e irá mudar. Pelo pouco que ouvi falar da Grace, ele parece ser um bom
profissional. Espero que não nos decepcione- Dizia ela, deixando a sala com
varias pastas na mão.
Recolhi
meus pertences e fui para a casa, pensativa, naqueles semblantes confusos e outros
que demonstravam surpresa. E eu? O que eu achava de tudo isso? A única coisa
que espero é ter feito a coisa certa.
Abro a porta e
encontro minha tia, assistindo a um documentário sobre vidas passadas. Na verdade, ela parecia estar dormindo. Aquilo
me deu um arrepio na espinha. Detesto coisas desse tipo. Vieram de outro mundo,
de pessoas doidas que devem ser internadas em um sanatório porque isso não existe,
definitivamente não.
Fui caminhando lentamente até a
mesinha, onde estava o controle. Quando estava prestes a desligar, ouço uma voz
por trás de mim.
-Querida,
eu ainda estou aqui.
-Nossa
tia Zoe, que susto! Eu achei que a Sra. estava dormindo!
-Bom,
eu não estava. E gostaria que não desligasse a TV. É interessante para mim e eu
aprecio muito. Ela me olhou com um sorriso e aquilo me assustou para caramba.
-Você
acredita, mas, eu não acredito. E preciso me retirar, porque, essa conversa
está me fazendo um pouco mal. Boa noite.
-Boa
Noite, Amber. Tenha bons sonhos!
Subi as escadas e respirei fundo.
Hora de tomar banho e ir para a cama. E parar de pensar no que a tia Zoe fala.

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