Cheguei em casa e permaneci dentro do carro por um tempo.
Fiquei relembrando os fatos daquele dia, principalmente minha saída para um
café com Harry. Isso foi muito bom, pois, há muito tempo não saía com amigos ou
colegas de trabalho. Desde que assumi a presidência e a propriedade da agência,
as coisas tem sido muito corridas. Dificilmente eu tinha tempo e, quando isso
acontecia, logo dava um jeito de preencher as lacunas. Queria ficar sempre
ocupada para não ter que pensar nas minhas atitudes, na minha vida, tanto particular quanto pessoal. Não queria
aproximação com o pessoal do trabalho. Sempre inventava uma desculpa para não
aparecer nas confraternizações. Com o passar do tempo, fui deixando de ser
convidada. E eu me senti mal. Mas, por quê? Eu nunca fui a nenhum desses
eventos e nunca senti falta, e agora, estou me sentindo mal por ter sido
esquecida? Não consigo me entender, não
mesmo.
Fiquei
pensando no quão bom foi conversar com Harry. Acho que estava me permitindo mais desde acidente. Aquelas conversas e
minhas experiências de quase morte me deixaram bem apavorada. Se eu precisava
mudar, consertar alguns erros e me tornar uma pessoa melhor, eu o faria. Seria
capaz de qualquer coisa para ver minha mãe feliz novamente. Senti-la em meus
braços ou sentir-me envolvida por ela, protegida contra qualquer mal. Senti-la
beijar a minha testa, dizer o quanto me amava e o quanto sentia por aquilo ter
acontecido. Ouvir sua voz serena e tranqüilizante. Oh Deus, como minha mãe fazia
muita falta. Algumas pessoas não fazem idéia do quanto me considero culpada
pelo que houve. Talvez, se eu tivesse sido uma filha mais compreensível, aquele
acidente nunca teria acontecido. Entretanto, agora é tarde para me lamentar,
mas não para tentar reparar alguns danos.
Suspirei
e olhei para o teto do carro. Em seguida, olhei para o banco do passageiro e
dentro de um compartimento, vi o envelope com a foto da mulher misteriosa.
Havia tanto trabalho a ser feito na agência que não tive tempo para procurar
sobre o paradeiro dessa desgraçada. Ela foi
uma das grandes culpadas pela morte da minha mãe. Como eu desejava encontrá-la
e dizer tudo que estava entalado na minha garganta. Infelizmente, eu ainda não
continha nenhuma pista sobre o paradeiro dela. Grace poderia saber de alguma
coisa e ela sabe, contudo, não irá me contar de maneira fácil. Eu precisava
pressioná-la contra a parede para arrancar alguma informação. Só que eu não
queria fazer isso. Tudo estava andando tão bem. Estávamos em paz, todos nós,
sem brigas e rixas. Por que acabar com aquilo? Justo agora? Deve haver outro
jeito. E eu vou descobrir.
De
repente, Tia Zoe aparece do lado de fora batendo no vidro. Eu saltei do banco e
dei um berro. Coloquei as mãos no rosto e
respirei fundo. Quando me recuperei, peguei minha bolsa e abri a porta do
carro lentamente. Zoe me olhava preocupada.
-Tia,
quer me matar do coração? Como a senhora aparece assim do nada e bate na porta
do carro assim? Disse eu, olhando fixamente para ela, esperando uma resposta.
-Você
demorou e achei que tinha sofrido outro acidente. Você não costuma demorar,
Amber... Onde estava? Ela demonstrava interesse na resposta.
-Com um
amigo. Da agência. Acho que nós daremos muito bem. Eu dei um meio sorriso, mas
ela não percebeu.
-Oh, e
desde quando você tem amigos? Mal tem
colegas, quem dirá amigos! Quem é essa pessoa?
-Ora,
tia é um garoto. O nome dele é Harry. Ele parecia ser uma babaca, mas, é gente
boa.
Julguei o livro pela capa. Deus que me perdoe.
-Hum...
Sei algo sobre ele. Ela cruzou os braços e deu um sorriso, como se conhecesse
Harry.
-Como a
senhora sabe tia? Nunca lhe falei sobre ele. Tem espionado a minha vida?
-Eu o
vi no dia do acidente. Ele apareceu alguns minutos depois da ambulância e me
perguntou o que tinha acontecido. Expliquei a história, ele disse que te
conhecia e trocamos palavras enquanto
você estava na cirurgia. Ficamos acordados grande parte da madrugada. Ele é
muito gentil para alguém da idade dele.
Jovens como ele são tão imaturos, não é? Ela entrava em casa e se
dirigia para a cozinha, enquanto eu a seguia silenciosamente. – O que vai
querer para hoje, Amber?- Perguntou, segurando uma panela.
Por um momento, havia me esquecido sobre o hospital.
Realmente, ele estava presente quando voltei da cirurgia. Ele parecia cansado,
estava com olheiras e o penteado estava bagunçado. No entanto, ele sorriu
quando me viu falando. Isso me
impressionou muito.
-Tia,
acho que vou para cama. Estou cansada. Boa noite! Eu subi as escadas
rapidamente e a ouvi resmungar alguma coisa. Não dei importância. Entrei no
quarto, tomei uma ducha e fui para cama. Coloquei a foto da mulher no meu
criado-mudo e fiquei pensativa sobre qual passo tomar para conseguir alguma
informação. Nesse momento, reparo que ao fundo da foto, existe um carro
particular. Tento decifrar a placa, mas esta se encontrava embaçada demais para
anotar. Gravo apenas o modelo do carro e a cor. Pego o notebook e coloco
informações sobre o modelo e a cor no local de busca. Para minha surpresa,
encontro um resultado relacionado ao carro e a morte dos meus pais. Reparo que
a reportagem é antiga, porém, foi restaurada pelo site do jornal. Consigo
analisar mais fotos tiradas naquele dia, e em deles, consigo identificar a
placa em um zoom. Anoto-a em um papel e salvo a página nos meus favoritos.
Antes disso, releio a reportagem e me deparo com uma informação incrível: o nome
da tal amante.
“Grave acidente mata casal Hünderberg e causa comoção em todo o país”
“Na noite de quatro de
dezembro de mil novecentos e noventa e um, um trágico acidente põe fim à vida
do casal Hünderberg, famosos pela companhia de propaganda mais rentável do
país. John Hünderberg discutia com sua mulher, Amy Hünderberg, quando o carro rodou
sobre a pista, molhada, por causa de uma forte chuva que caía sobre a cidade,
batendo lateralmente contra uma grande carreta, incediando-o instantaneamente.
O casal morreu incinerado entre as ferragens.
Segundo alguns conhecidos, como
Dianne King, amiga de Amy, o casal vinha discutindo por razões pessoais. John
estava envolvido em um relacionamento paralelo com outra mulher chamada Tina
Walters. Procurada pela equipe de reportagem deste jornal, ela nega qualquer
envolvimento sobre o caso e alega não conhecer John. Entretanto, alguns colegas
de trabalho de John afirmam conhecer Tina, pois ela trabalhava como estagiária
durante a época do acidente e ainda, como assistente pessoal de John. Alguns
relatam que a carga horária da estagiária se estendia por algumas horas a mais
do que o previsto, além de ser flagrada em situação comprometedora com o dono
da agência dentro de seu próprio carro. As fotos foram enviadas à nossa equipe,
mas, Tina nega qualquer envolvimento, dizendo não ser ela, a jovem com longos
cabelos escuros e um sorriso encantador que conversava animadamente e trocava
carícias com o empresário. Em nota, lamentamos a perda do casal que deixa todos
os bens em nome de sua filha, Amber Hünderberg, com apenas dez anos de idade. A
empresa será administrada pelo irmão de John até a jovem adquirir a maioridade
para assumir o controle da agência.
Obrigada casal Hünderberg , por contribuir
para a história da propaganda em nosso país.”
Por Amelia Judd
Aquilo
me deixou perplexa, mas, me dava muitas pistas para o próximo passo: procurar pela dona da reportagem: Amelia
Judd.


Nenhum comentário:
Postar um comentário