Acordei determinada a encontrar essa tal de Amelia Judd.
Passei a noite inteira procurando sobre ela e descobri bastante coisa: ela era
uma das repórteres mais influentes da década de noventa, até publicar uma
reportagem falsa de seqüestro para ganhar audiência. Resultado: acabou
despedida do jornal mais respeitado do país. Sem dinheiro para pagamentos,
ficou falida e se mudou para um subúrbio, distante do centro. Ela vivia na casa
da irmã e trabalhava como empregada em uma mansão de um respeitado casal de
médicos.
Estereótipo da personagem Amelia Judd na década de 90
Créditos: revistabemviver.blogspot.com
Eu teria que me deslocar até a periferia da cidade para
encontrá-la. Isso antes dela sair para o
trabalho.
Desci
das escadas sorrateiramente, peguei minha bolsa, deixei um bilhete para tia Zoe
e parti. Quando estou entrando no carro, sou surpreendida por alguém tocando
meu ombro. Desviro-me
rapidamente e me deparo com Harry dando um pequeno
sorriso.
- O que
você está fazendo aqui? Como sabe onde moro? –Indaguei, assustadíssima.
-Perguntei
a Grace. Depois de ontem, pensei que pudéssemos ser amigos. -Dizia ele, me
oferecendo um café. Agradeci, franzindo o cenho, tentando compreender o que se
passava.
-Se
você quiser, eu posso ir embora. Desculpe o transtorno. Harry se retirava,
cabisbaixo e desapontado, quando pedi que ele ficasse. Eu precisava de ajuda
com o caso da Amelia e ele seria uma ótima companhia. Espere, o que eu acabei de dizer? Oh, por Deus.
-Não,
por favor, fique! –Disse eu, enquanto arrumava alguns itens jogados dentro do
carro, tentando colocá-los dentro de um compartimento. Ele se virou e sorriu,
vindo em minha direção. Seus olhos brilhavam.
- Eu
posso saber o motivo deste sorriso? Quer ganhar alguma promoção na agência, não
é? Eu estava em tom de brincadeira e seu semblante não mudou.
-Eu
gosto de sorrir. E de te ver sorrir. É tão lindo. Deveria fazer isso mais
vezes. Eu parei o carro e nos encaramos. Ele desviou o olhar para meus lábios e
fomos interrompidos por uma forte buzina que ecoava atrás do meu veículo. Por um momento, esqueci que estava dirigindo
e que poderíamos sofrer algum acidente. Voltei minha atenção para o volante
e dei um meio sorriso.
Passamos
em frente à agência e Harry achou estranho, o fato de não termos dobrado em
seguida. Aquilo o desesperou um pouco.
-Onde
estamos indo Amber? Vai fazer alguma maldade comigo? Por favor, não faça isso,
eu imploro! Ele ajeitava os óculos e seus olhos começaram a marejar, tentando
se desvencilhar do cinto que o protegia.
-Calma,
eu não vou fazer maldade com você. Nós vamos a um lugar, mas tem que me
prometer que vai guardar segredo, ok?
-Por
que eu devo guardar segredo? É algo muito grave?- Disse, recostando no banco,
aliviado.
-Quero
fazer algumas perguntas à Amelia Judd. Ela conhece a história por detrás do acidente
dos meus pais, em 1991 e também conhece o pivô da discussão, Tina Walters. Eu
olhava para frente, concentrada, mas sentindo um aperto no peito. Toda vez que essa história vinha à tona eu
me sentia culpada e triste. Respirei fundo e continuei olhando para frente. Não
queria que Harry me visse chorando. Ele viu uma lágrima escorrer do meu rosto e
limpou com o dedo polegar.
-Eu
entendo a sua dor Amber. Mas, ela não deve durar para sempre. São vinte anos de
uma culpa que você não teve. Simplesmente aconteceu e...
-SÃO
VINTE E UM ANOS E AINDA NÃO SEI O QUE REALMENTE ACONTECEU, HARRY. SÃO 21 MÍSEROS
ANOS QUE TENTO DESCOBRIR O QUE ACONTECEU E SOU IMPEDIDA DE CONTINUAR PORQUE
ACHAM QUE ESTOU LOUCA, OBCECADA. ELES ERAM MEUS PAIS, DROGA! EU NÃO TIVE A
OPORTUNIDADE DE APRECIAR A VIRTUDE DE SER FILHA E AGORA EU NÃO POSSO VOLTAR
ATRÁS! Neste momento, estava em lágrimas, tentando lutar contra a dor, e todos
os sentimentos que recaíam sobre mim.
-Amber,
eu estarei do seu lado, sempre, ok? Respire fundo e tente se orientar. Para
onde nós vamos? Harry tentou me acalmar, ligando o GPS.
Mostrei a indicação em um papel e ele logo
programou no aparelho, pois via graves possibilidades de errarmos o caminho.
Estava em prantos e muito sensível. Ora
estou nos céus, ora estou no inferno. Droga!
Seguimos
as indicações do GPS e logo chegamos ao destino. Um bairro bem abaixo do esperado. Entretanto, era organizado e
encontramos Amelia com facilidade.
A casa onde ela morava era muito modesta. Havia somente um
quarto, onde quatro pessoas dormiam: Amelia, a irmã, Ana e os seus dois filhos.
Era simples, porém, organizado. Tudo estava em ordem e devidamente limpo.
Amelia limpava as janelas quando paramos em sua porta. Ela me recebeu bem e
ficou muito surpresa quando soube quem eu era. A foto do editorial em
comparação àquela que via diante de mim era impressionante. Ela parecia muito
mais velha, mais magra e os cabelos estavam brancos. Ninguém a reconheceria em
lugar algum. Ela caiu no ostracismo.
-Estou
muito supresa Srta. Hünderberg. Acredito que esteja aqui após ler a minha
reportagem de 22 anos atrás e tentar descobrir quem é a misteriosa mulher
atendida pelo nome de Tina Walters. Ela olhava para baixo, pensativa.
Eu assenti e ficamos na expectativa. O que ela poderia dizer? Quem era Tina Walters? E por onde andará essa
cretina? Eu queria todas as respostas naquele momento. Ou alguma parte dele.
Mas temia que, pela reação de Amelia, eu não descobriria muito. Pelo menos por
enquanto.

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