Imagem do carro de Amber, um volvo XC60.
Créditos: www.quatrorodas.abril.com.br
Harry dirigia atentamente e ao mesmo tempo me indagava sobre
o ocorrido.
-Amber,
o que aconteceu com você? O que aconteceu no apartamento da Tina Walters?
-O nome
dela não é Tina Walters. Ela é a mãe da
Grace. Debra Minnermann. Grace sabia de tudo e nunca havia me contado. Como
ela pode ser cretina? Eu sempre a tratei como uma das pessoas mais confiáveis
da agência. E agora ela me surpreende assim? Eu não posso confiar em ninguém
mesmo. Resmunguei eu, cabisbaixa.
-
Preciso falar a verdade. Grace me ligou na agência e me contou que você havia
surtado e estava perambulando pelas ruas como uma doida. Eu não sabia como ela
tinha descoberto isso. Mesmo assim, saí às pressas para tentar de encontrar. E
foi aí que te vi. Ele me olhou atentamente, analisando a minha reação. Eu
fechei os olhos e tentei me recompor.
- Ela
sabia de tudo, Styles. Eu estou inconformada. Eu não consigo entender. Por que
ela fez isso? Por que me deixou sofrer com as dúvidas por tanto tempo? Eu
olhava para o teto do carro e me encolhi no banco do passageiro. – Ela tentou
se explicar, mas, eu não quis ouvir. Já estava farta de sua hipocrisia. Saí
correndo, esbarrando nas pessoas, fui atropelada, continuei correndo mancando
de uma perna, entrei em um beco e por lá fiquei totalmente só. Olhava para a
janela e depois olhei para Harry, que me encarava, em silêncio.
-Isso
explica o seu estado. Vou te levar para casa. Você precisa de assistência, acho
que sua tia pode fazer isso. Ele ajeitou os óculos e desviou o olhar para
frente.
- Como
irei explicar isso à tia Zoe? Meu Deus, ela vai surtar! Eu colocava as mãos na
cabeça, olhando para os lados, tentando formular mentalmente uma resposta.
-Amber,
vai dar tudo certo. Eu te ajudo, se você quiser, é claro. Ele esboçou um
sorriso que me tranqüilizou.
Ele
dobrou algumas esquinas e logo chegamos em casa. Ele parou e desligou o carro,
entregando as chaves em minha mão. Trocamos olhares e eu resolvi sair do carro.
-
AMBER, AMBER! O que aconteceu com você? Perguntou tia Zoe, correndo em minha
direção. – Você foi seqüestrada ou alguma coisa assim? Ela olhava para mim de
cima a baixo, horrorizada.
- Tia
eu...
-Vamos
entrar, vamos entrar. Ela colocou o braço em volta da minha cintura, levando-me
para casa. – Você também, vamos! Ela apontava para Harry que, olhou assustado,
mas, assentiu e foi caminhando atrás de nós.
Entramos
em casa e enquanto Zoe buscava roupas para mim, Harry me olhava, pensativo. Eu o olhava de volta, tentando decifrar seus
pensamentos. Ele desviou o olhar para baixo e disse:
-
Amber, você precisa ser forte. É doloroso, mas uma hora você conseguirá
processar tudo isso e levar sua vida adiante. Eu não quero que pense que não me
importo. Não, não é isso. Apenas acho que a vida segue. Infelizmente seus pais
faleceram em um terrível acidente, entretanto, deixaram um legado em suas mãos.
Você sabe o que deve fazer!- Disse ele, sentando ao meu lado, segurando as
minhas mãos. Entreolhamo-nos e eu pude sentir a veracidade de suas palavras. Ele estava certo. Eu preciso digerir esse
drama e seguir em frente. Não seria fácil, entretanto, não impossível.
-Eu
estarei aqui, sua tia também. Todos nós estamos do seu lado. Ele esboçou outro
sorriso que me transmitia confiança. Cada vez eu me sentia mais segura para esquecer
o passado e estar mais próximo daqueles que se importam comigo.
Tia Zoe
reapareceu com roupas limpas e quando nos viu, pigarreou e pediu que eu
trocasse de roupa enquanto ela preparava o jantar. Harry se preparava para ir
embora, quando minha tia o convidou para que ficasse e jantasse conosco. Ele
aceitou de bom grado. Ele se ofereceu para ajudar Zoe a preparar o jantar.
-É o
mínimo que posso fazer! Disse, ajeitando o cabelo, sorridente, dirigindo-se
para a cozinha.
Enquanto
eu estava lá em cima, tomando banho e trocando de roupa pude ouvir as
gargalhadas de Zoe que ecoavam pela casa. Resolvi dar uma espiada. Sorrateiramente,
me aproximei das escadas e vi Harry decorando um dos pratos que minha tia
serviria esta noite. Ele tinha talento para a gastronomia, o que me surpreendeu
mais uma vez. Quem diria que aquele
garoto desengonçado poderia ser tão talentoso com a comida e tão habilidoso em
tarefas que não envolviam sua intelectualidade, que obviamente ele tinha de
cara, pelo modo como trajava, falava e se comportava? Cada dia que passava, eu
ficava mais admirada com a sua personalidade. Por trás daqueles óculos se
escondiam um par de belos olhos verdes, que tinham um olhar penetrante e
encantador. Por trás de um simples sorriso, eu encontrava tranqüilidade,
força e ternura. O penteado era antiquado, anacrônico para o contexto atual,
mas, poderia ser facilmente resolvido. Às vezes eu me perguntava, “Por que ele se
vestia daquele jeito?”. Não estamos nos anos 60. Não mais. Cinco décadas se
passaram e ele era jovem, então, “Qual seria a grande razão de usar estes
trajes tão retrógrados?”. Milhares de perguntas passavam pela minha cabeça,
enquanto me arrumava para descer e me reunir com eles.
Já
pronta, desci as escadas rapidamente e ajudei a colocar a mesa. Minha tia
sempre carregava a tradição de realizarmos as principais refeições juntos. Sempre.
Muitas vezes, quando estava em nossa casa, ela tentava impor, no entanto, nunca
funcionava, pois, minha mãe gostava que levassem as refeições até seu quarto e
meu pai mal comia em casa. Estava sempre correndo, cheio de desculpas, alegando
não ter tempo e que, compensaria tudo depois. Nunca aconteceu. Eu e minha tia
ficávamos a sós, uma olhando para outra. Ficava sempre quieta porque não tinha
muita paciência para conversas. Ela tentava puxar assunto e eu sempre respondia
por monossílabos, tentando encerrar qualquer aproximação. Zoe ficava solitária
na cozinha, pensando sobre o comportamento da nossa família, que ela
considerava inadequado e deplorável. Eu não me importava. Se os meus pais não
queriam porque eu teria que fazer o que eles não fazem? Não, não para mim.
Éramos assim. Vivíamos assim: morávamos no mesmo tempo e cada um tinha a sua
vida. Não compartilhávamos nenhuma alegria, tristeza ou acontecimento. Tudo sempre quieto, em seu lugar.
Enquanto
jantávamos, Zoe puxava assunto com Styles. Ele começava a conversar, mas, logo
a conversa terminava. Eu olhava a tudo atentamente, quando minha tia resolveu
me colocar na conversa.
Imagem do jantar preparado por Zöe e Harry
-A
comida está agradável, Amber? Indagou, se virando para mim. Harry fez o mesmo.
-Está
maravilhosa! A senhora continua cozinhando maravilhosamente bem. Fazia tempo
que não apreciava estes pratos maravilhosos. Obrigada por trazê-los de volta.
Eu esbocei um leve sorriso, olhando para os dois.
-Amber,
quem cozinhou esta noite foi seu amigo, Harry. Para mim, foi uma grande
surpresa. Nunca pensei que ele pudesse
ser tão bom! Você me surpreendeu querido! Acredite! Ele colocou sua mão sobre o
ombro dele, que sorriu de volta, timidamente.
-Uau!
Parabéns! Pode aprimorar suas habilidades em um curso de gastronomia. Tudo aqui
está maravilhoso. Uma salva de palmas, tia Zoe, por favor.
Aplaudimos em pé e Harry olhou para baixo. Suas bochechas
coraram e ele agradeceu olhando fixamente para mim e depois para Zoe que o
abraçou.
Continuamos com pequenas conversas e quando terminamos,
tiramos a mesa e Harry se preparava para ir embora.
-Eu
realmente preciso ir Sra. Übermann. Mas quero dizer que foi um grande prazer
conhecê-la. A senhora é maravilhosa e Amber tem muita sorte por tê-la contigo.
-Disse ele, abraçando-a. Depois, foi a hora de se despedir de mim.
-Amber,
eu só espero que possa resolver todos os seus problemas e não deixe isso tomar
conta da sua vida. Você tem uma vida incrível e pessoas dispostas a te ajudar.
Eu estarei aqui sempre, pode contar comigo, ok? Ele me puxou para um forte abraço e mais uma vez, senti que podia
confiar em suas palavras. Fechei os olhos e o agradeci por tudo. Ainda prometi
que tudo seria resolvido da melhor maneira possível. Na verdade, o passado
estava à tona porque não havia sido totalmente concluído. Existiam pequenas
lacunas que ainda não estavam preenchidas e isso levaria um tempo. Por menor
que seja, eu lidarei com isso e seguirei em frente.
Levei
–o até a porta e um amigo o aguardava em um carro estacionado próximo a minha
casa. Acenei para ele, que sorriu de volta. Esperei o carro dar partida e sumir
naquela noite fria. Tia Zoe estava na cozinha quando me aproximei.
-Esse
rapaz é gentil e tem um coração genuinamente bom. Você deveria dar mais atenção
a isto Amber, em vez de tratar as pessoas da maneira como você as trata. -Disse
ela, terminando de guardar os pratos já lavados.
-Não se
preocupe tia, eu não sou mais aquela mulher. Desde quando sofri o acidente,
muitas coisas mudaram e meu jeito de tratar as pessoas também. Precisamos
conversar sobre algumas coisas que descobri hoje. Eu me virei e esperei sua
reação.
Ela parou o que estava
fazendo e me encarou curiosa. Esta seria uma longa noite para nós duas.







Nenhum comentário:
Postar um comentário