sábado, 21 de dezembro de 2013

Jar Of Memories - Capítulo 19: Trust




 Imagem do carro de Amber, um volvo XC60.
Créditos: www.quatrorodas.abril.com.br


                Harry dirigia atentamente e ao mesmo tempo me indagava sobre o ocorrido.

                -Amber, o que aconteceu com você? O que aconteceu no apartamento da Tina Walters?
                -O nome dela não é Tina Walters. Ela é a mãe da Grace. Debra Minnermann. Grace sabia de tudo e nunca havia me contado. Como ela pode ser cretina? Eu sempre a tratei como uma das pessoas mais confiáveis da agência. E agora ela me surpreende assim? Eu não posso confiar em ninguém mesmo. Resmunguei eu, cabisbaixa.


                - Preciso falar a verdade. Grace me ligou na agência e me contou que você havia surtado e estava perambulando pelas ruas como uma doida. Eu não sabia como ela tinha descoberto isso. Mesmo assim, saí às pressas para tentar de encontrar. E foi aí que te vi. Ele me olhou atentamente, analisando a minha reação. Eu fechei os olhos e tentei me recompor.

                - Ela sabia de tudo, Styles. Eu estou inconformada. Eu não consigo entender. Por que ela fez isso? Por que me deixou sofrer com as dúvidas por tanto tempo? Eu olhava para o teto do carro e me encolhi no banco do passageiro. – Ela tentou se explicar, mas, eu não quis ouvir. Já estava farta de sua hipocrisia. Saí correndo, esbarrando nas pessoas, fui atropelada, continuei correndo mancando de uma perna, entrei em um beco e por lá fiquei totalmente só. Olhava para a janela e depois olhei para Harry, que me encarava, em silêncio.

                -Isso explica o seu estado. Vou te levar para casa. Você precisa de assistência, acho que sua tia pode fazer isso. Ele ajeitou os óculos e desviou o olhar para frente.

                - Como irei explicar isso à tia Zoe? Meu Deus, ela vai surtar! Eu colocava as mãos na cabeça, olhando para os lados, tentando formular mentalmente uma resposta.

                -Amber, vai dar tudo certo. Eu te ajudo, se você quiser, é claro. Ele esboçou um sorriso que me tranqüilizou.




                Ele dobrou algumas esquinas e logo chegamos em casa. Ele parou e desligou o carro, entregando as chaves em minha mão. Trocamos olhares e eu resolvi sair do carro. 

                - AMBER, AMBER! O que aconteceu com você? Perguntou tia Zoe, correndo em minha direção. – Você foi seqüestrada ou alguma coisa assim? Ela olhava para mim de cima a baixo, horrorizada.

                - Tia eu...

                -Vamos entrar, vamos entrar. Ela colocou o braço em volta da minha cintura, levando-me para casa. – Você também, vamos! Ela apontava para Harry que, olhou assustado, mas, assentiu e foi caminhando atrás de nós.

                Entramos em casa e enquanto Zoe buscava roupas para mim, Harry me olhava, pensativo. Eu o olhava de volta, tentando decifrar seus pensamentos. Ele desviou o olhar para baixo e disse:

                - Amber, você precisa ser forte. É doloroso, mas uma hora você conseguirá processar tudo isso e levar sua vida adiante. Eu não quero que pense que não me importo. Não, não é isso. Apenas acho que a vida segue. Infelizmente seus pais faleceram em um terrível acidente, entretanto, deixaram um legado em suas mãos. Você sabe o que deve fazer!- Disse ele, sentando ao meu lado, segurando as minhas mãos. Entreolhamo-nos e eu pude sentir a veracidade de suas palavras. Ele estava certo. Eu preciso digerir esse drama e seguir em frente. Não seria fácil, entretanto, não impossível.

                -Eu estarei aqui, sua tia também. Todos nós estamos do seu lado. Ele esboçou outro sorriso que me transmitia confiança. Cada vez eu me sentia mais segura para esquecer o passado e estar mais próximo daqueles que se importam comigo.

                Tia Zoe reapareceu com roupas limpas e quando nos viu, pigarreou e pediu que eu trocasse de roupa enquanto ela preparava o jantar. Harry se preparava para ir embora, quando minha tia o convidou para que ficasse e jantasse conosco. Ele aceitou de bom grado. Ele se ofereceu para ajudar Zoe a preparar o jantar.
                -É o mínimo que posso fazer! Disse, ajeitando o cabelo, sorridente, dirigindo-se para a cozinha.
                Enquanto eu estava lá em cima, tomando banho e trocando de roupa pude ouvir as gargalhadas de Zoe que ecoavam pela casa. Resolvi dar uma espiada. Sorrateiramente, me aproximei das escadas e vi Harry decorando um dos pratos que minha tia serviria esta noite. Ele tinha talento para a gastronomia, o que me surpreendeu mais uma vez. Quem diria que aquele garoto desengonçado poderia ser tão talentoso com a comida e tão habilidoso em tarefas que não envolviam sua intelectualidade, que obviamente ele tinha de cara, pelo modo como trajava, falava e se comportava? Cada dia que passava, eu ficava mais admirada com a sua personalidade. Por trás daqueles óculos se escondiam um par de belos olhos verdes, que tinham um olhar penetrante e encantador. Por trás de um simples sorriso, eu encontrava tranqüilidade, força e ternura. O penteado era antiquado, anacrônico para o contexto atual, mas, poderia ser facilmente resolvido.  Às vezes eu me perguntava, “Por que ele se vestia daquele jeito?”. Não estamos nos anos 60. Não mais. Cinco décadas se passaram e ele era jovem, então, “Qual seria a grande razão de usar estes trajes tão retrógrados?”. Milhares de perguntas passavam pela minha cabeça, enquanto me arrumava para descer e me reunir com eles.


                Já pronta, desci as escadas rapidamente e ajudei a colocar a mesa. Minha tia sempre carregava a tradição de realizarmos as principais refeições juntos. Sempre. Muitas vezes, quando estava em nossa casa, ela tentava impor, no entanto, nunca funcionava, pois, minha mãe gostava que levassem as refeições até seu quarto e meu pai mal comia em casa. Estava sempre correndo, cheio de desculpas, alegando não ter tempo e que, compensaria tudo depois. Nunca aconteceu. Eu e minha tia ficávamos a sós, uma olhando para outra. Ficava sempre quieta porque não tinha muita paciência para conversas. Ela tentava puxar assunto e eu sempre respondia por monossílabos, tentando encerrar qualquer aproximação. Zoe ficava solitária na cozinha, pensando sobre o comportamento da nossa família, que ela considerava inadequado e deplorável. Eu não me importava. Se os meus pais não queriam porque eu teria que fazer o que eles não fazem? Não, não para mim. Éramos assim. Vivíamos assim: morávamos no mesmo tempo e cada um tinha a sua vida. Não compartilhávamos nenhuma alegria, tristeza ou acontecimento. Tudo sempre quieto, em seu lugar.

                Enquanto jantávamos, Zoe puxava assunto com Styles. Ele começava a conversar, mas, logo a conversa terminava. Eu olhava a tudo atentamente, quando minha tia resolveu me colocar na conversa.


 Imagem do jantar preparado por Zöe e Harry


                -A comida está agradável, Amber? Indagou, se virando para mim. Harry fez o mesmo.


                -Está maravilhosa! A senhora continua cozinhando maravilhosamente bem. Fazia tempo que não apreciava estes pratos maravilhosos. Obrigada por trazê-los de volta. Eu esbocei um leve sorriso, olhando para os dois.
                -Amber, quem cozinhou esta noite foi seu amigo, Harry. Para mim, foi uma grande surpresa.  Nunca pensei que ele pudesse ser tão bom! Você me surpreendeu querido! Acredite! Ele colocou sua mão sobre o ombro dele, que sorriu de volta, timidamente.



                -Uau! Parabéns! Pode aprimorar suas habilidades em um curso de gastronomia. Tudo aqui está maravilhoso. Uma salva de palmas, tia Zoe, por favor.


                 Aplaudimos em pé e Harry olhou para baixo. Suas bochechas coraram e ele agradeceu olhando fixamente para mim e depois para Zoe que o abraçou.
Continuamos com pequenas conversas e quando terminamos, tiramos a mesa e Harry se preparava para ir embora.
                -Eu realmente preciso ir Sra. Übermann. Mas quero dizer que foi um grande prazer conhecê-la. A senhora é maravilhosa e Amber tem muita sorte por tê-la contigo. -Disse ele, abraçando-a. Depois, foi a hora de se despedir de mim.

                -Amber, eu só espero que possa resolver todos os seus problemas e não deixe isso tomar conta da sua vida. Você tem uma vida incrível e pessoas dispostas a te ajudar. Eu estarei aqui sempre, pode contar comigo, ok? Ele me puxou para um forte abraço e mais uma vez, senti que podia confiar em suas palavras. Fechei os olhos e o agradeci por tudo. Ainda prometi que tudo seria resolvido da melhor maneira possível. Na verdade, o passado estava à tona porque não havia sido totalmente concluído. Existiam pequenas lacunas que ainda não estavam preenchidas e isso levaria um tempo. Por menor que seja, eu lidarei com isso e seguirei em frente.

                Levei –o até a porta e um amigo o aguardava em um carro estacionado próximo a minha casa. Acenei para ele, que sorriu de volta. Esperei o carro dar partida e sumir naquela noite fria. Tia Zoe estava na cozinha quando me aproximei.

                -Esse rapaz é gentil e tem um coração genuinamente bom. Você deveria dar mais atenção a isto Amber, em vez de tratar as pessoas da maneira como você as trata. -Disse ela, terminando de guardar os pratos já lavados.

                -Não se preocupe tia, eu não sou mais aquela mulher. Desde quando sofri o acidente, muitas coisas mudaram e meu jeito de tratar as pessoas também. Precisamos conversar sobre algumas coisas que descobri hoje. Eu me virei e esperei sua reação.


Ela parou o que estava fazendo e me encarou curiosa. Esta seria uma longa noite para nós duas.


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