quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Jar Of Memories - Capítulo 21: Mean





  Acordei com o vento balançando as folhas da árvore do jardim. Levantei-me e ouvi o barulho da chuva, que estava intensa com relâmpagos e fortes rajadas que saíam arrastando cascalhos pelo caminho. Lembrei da última noite em que vi meus pais. A notícia da morte me deixou em choque por alguns dias no hospital. Peguei o porta-retrato que estava sob o criado mudo. A voz da tia Zoe me distraiu, dando-me um grande susto.

                -Nossa tia, não me assuste assim, por Deus! - Disse eu, virando-me rapidamente para ela.

                -Desculpe-me. O que você faz com este porta-retrato nas mãos, posso saber? -Disse ela, aproximando-se de mim.

                - Eu senti falta da minha mãe e me lembrei de que a senhora o havia escondido pelas gavetas deste armário. Eu comecei a procurá-lo e o encontrei. Eu o abraçava fortemente contra o peito, como se fosse um filho.

                -Amber, essas lembranças não são saudáveis. Você tinha pesadelos todas as noites e me pedia para morrer porque queria estar perto de Amy. Por isso, eu o escondi. Eu deveria tê-lo jogado fora. Ela sentou na minha cama, colocando as mãos sobre o rosto.

                -Tia, eu estou superando a perda. Pela primeira vez, estou aceitando o fim da minha mãe. Eu tenho lembranças boas e ruins, mas tento ficar somente com as boas. Este porta-retrato não me traz medo, não mais. Eu me sinto segura. Eu sentei ao seu lado e apertei sua mão, sorrindo.

                -Eu tenho tanto medo de te perder, Amber. Esse mundo está tão louco. Ninguém respeita ninguém, pessoas matam por qualquer bobagem e são mortas por motivos fúteis. Eu só quero que você fique bem, meu anjo. Eu quero cuidar de você, não quero que lhe façam mal. Se eu te perdesse, não sei o que faria. Eu enlouqueceria, certamente.

                Eu lhe dei um forte abraço e fixei meu olhar garantindo a ela que nada de ruim aconteceria.

                Tia Zoe saiu e disse que o desjejum estava pronto. Escovei os dentes, troquei de roupa e estava pronta para mais um dia de trabalho. Respirei fundo pedindo aos anjos que tudo desse certo. Desci as escadas, rapidamente, tomei um chá, comi um waffle às pressas e me despedi verbalmente de Zoe.  A chuva estava muito forte e alguns respingos caíram sobre a minha blusa. Coloquei um blazer por cima e liguei o carro. Dirigia com cautela e demorei uma hora e meia para chegar. Ficar presa no tráfego em plena chuva é entediante. Liguei o rádio e tentei encontrar alguma música interessante. Tentativa frustrada. Meu dia já não tinha começado muito bem. Eu só esperava que isto não se prolongasse ao decorrer do dia. Cheguei à  agência e me deparo com Grace e mais outra garota loira, ambas sentadas na mesa da recepção, conversando animadamente. Como Grace pode ser tão dissimulada? Ontem, suplicava por perdão e hoje, está agindo como se nada tivesse acontecido? Ah, isto é algum tipo de palhaçada? E quem é essa loira, ao lado dela? Eu não mereço isso!
                                            

 Estereótipo da personagem Perrie Edwards
Créditos: David Rushen


                -Bom dia, Amber! Eu pensei em ligar para perguntar se você está bem. Eu fiquei preocupada, só Deus sabe o quanto. Peço desculpas pela minha mãe e por mim. Eu tentei fazer isto para o seu bem. Por favor, perdoe-me. Ah, antes que me esqueça, essa é a minha nova colega, Perrie Edwards. Elaine pediu demissão e precisávamos de outra substituta a tempo. Espero que não se importe. -Ela cruzava as mãos e me olhava esperançosa.

                Franzi o cenho ao olhar para Perrie que esperava por um sorriso, seguido de minha aprovação. Esbocei um fraco sorriso, sem emoção alguma. Edwards não era a fonte da minha raiva e mágoa agora.

                -Faremos uma reunião agora! Avise aos presentes e Perrie fará isto com os que forem chegando. Não podemos perder tempo, vamos! Pisquei o olho e fui para minha sala, planejando em como daria uma lição em Grace. Ela não sairia impune de tudo o que me fez passar. E quem o diga, a cretina da mãe, Debra Minnermann. Infelizmente, sua filha vai pagar caro, pelo erro que você cometeu ao ter feito minha mãe sofrer. O sentimento de ódio transbordava o meu ser e aquela mulher agradável e vulnerável havia desaparecido. Como? Eu ainda tinha o rancor dentro de mim. Eu não conseguia perdoar aquela família, porque eles tinham destruído a minha. Eu era tão jovem, uma criança. Como poderia sobreviver aquilo?



                Grace me chamou dizendo que todos estavam à espera. Eu assenti e fui para a sala de reunião. 
Perdoe-me mamãe, mas eu não consigo reverter esta situação.
Cheguei à sala e todos estavam me esperando, curiosos. Alguns balançavam a caneta, outros olhavam para os lados e alguns conversavam entre si. Assim que me viram cruzando à porta espelhada, desviaram toda a atenção para mim.

                -Bom dia pessoal! -Eu esbocei um semblante alegre, sem despertar qualquer surpresa.

                -Bom dia! Responderam todos.

Pedi à Grace que se juntasse a nós, pois, tinha uma grande surpresa a ser revelada. Styles me olhou desconfiado e pareceu ser o único a estranhar aquele ambiente. Mesmo assim, ajeitou os óculos e ajeitou-se em seu assento, atento. Hora do espetáculo!

                -Estou aqui para dizer que nossa querida funcionária Grace Minnermann não trabalhará mais conosco! E acredito que vocês devem se perguntar as causas desta minha decisão, que foi pensada com muita seriedade e cautela.

Todos se entreolhavam, e em cada um deles, o semblante transmitia curiosidade e estranheza.  Edwards empalideceu. Mesmo assim, continuei:

                -Grace escondeu um segredo muito importante de mim, durante anos. Bom, como todos vocês sabem, meus pais morreram em um trágico acidente a vinte e dois anos atrás. Eles brigavam muito durante o trajeto e o motivo da discussão era a mãe de Grace, Debra Minnermann, uma estagiária de quinta categoria, que não satisfeita com sua atual vida amorosa, resolveu infernizar a vida de um casal que era feliz, mas que se desestruturou depois da chegada desta vadia. E quando eu descobri isto, Debra fez piada do assunto e disse que não se arrependera de nada do que fizera. Grace chegou em meio a uma calorosa discussão entre mim e a sua adorável mãezinha e pediu suas sinceras desculpas, confirmando saber de tudo. Ela nunca me contou porque se preocupava muito com a minha possível reação, não é Grace?  - Olhei para ela, que tentava novamente se desculpar por tudo.

                -Então é isso não é? Você preparou tudo isso para me humilhar em público? Não somos perfeitos. Eu cometi um grave erro e me arrependo. Estou tentando consertar o que fiz. Por que não pode fazer o mesmo, perdoando-me por tudo? É tão complicado assim? Ela se levantou e elevou o tom, em lágrimas.

                -Não se faça se vítima! Como eu poderei perdoar um segredo escondido por dez míseros anos? Anos longos e sofridos e você sabe disso! Por que esconder? Para poupar a minha alma e o meu sofrimento? Isso não resolveu nada, porque agora estou sofrendo e da pior maneira possível, pois, não posso confiar na minha melhor amiga! Meu choro ecoou pela sala e o clima e Jasmine interveio:

                -Você nos chamou aqui para isso, Amber? Encontrem uma maneira de se resolverem e não nos coloque como público disto! Nós não merecemos! Parem de brigar! O passado já foi! Não se destruam desta forma lamentável! Jasmine nos olhou com pena e se retirou da sala. Grace chorava e James tentava consolá-la, repreendendo-me com o olhar. A sensação que todos tinham por mim era de raiva e revolta, como se eu fosse a grande vilã. E na verdade, eu era.

                - Você não tem escrúpulos, Hünderberg! A Grace tentou se desculpar, mas, você como sempre, ataca com pedras, todos que querem te proteger! Disparou Ella rapidamente. – Seus pais teriam vergonha da mulher em que você se tornou: amarga, rude e cruel. Você não precisa ser assim. Eu não quero te ver assim, chega! Os olhos de Ella marejavam e ela saiu da sala, seguido por outros três colegas que se expressavam por meio de diálogos inaudíveis. Algo estava preso na minha garganta. Seria o meu caráter? Se é que ainda tenho um.

                James tentava tirar Grace  dali aos prantos, enquanto ela olhava para mim com pena.


                -Saiba Grace, que nada, nada que você disser vai mudar o que sua família fez comigo. Eu não posso perdoá-la por isso, enquanto sua mãe se diverte com o meu sofrimento. Isto para mim ainda não vale. Sinto muito. Conversaremos depois sobre o quanto irá receber pelo tempo em que trabalhou comigo. No mais, é isso. Adeus. – Terminei o momento com estas palavras, frias e cortantes.



                -Você é cruel e louca, Hünderberg. Precisa de ajuda. E muita. Essas foram as palavras de James, que finalmente levou Grace para fora daquela sala.

                Bom, restávamos eu e Harry, que até agora não havia se manifestado sobre o assunto. Comecei a falar como se nada tivesse acontecido.

                -Vamos ao trabalho não é? -Indaguei eu, enxugando os prantos.
Ele estava de cabeça baixa e de repente, olhou para mim, sério, tirando os óculos e neste momento pude ver que seu olhar era de espanto e desprezo pela minha “maravilhosa ação”.

                -Amber, o que está acontecendo com você? Por que continua mal tratando as pessoas? Você havia prometido que tentaria melhorar e eu realmente acreditei. Mas, era tudo mentira, não é? Você não perdoa nada nem ninguém, não importa o que aconteça. Grace pode ter errado, mas todos nós temos uma segunda chance, um perdão. Ela não teve culpa, mas mesmo assim, tentou se desculpar e, a sua reação é humilhá-la? Isto não está certo, certamente não. Eu pensei que fossemos amigos, no entanto, está acontecendo exatamente o contrário. Não pense que sentirei pena, porque o que você fez hoje foi lastimável. Espero que algum dia você se lembre desta conversa e reveja suas atitudes. Enquanto você pensa que está ganhando a simpatia das pessoas, você a está perdendo, aos poucos. Logo, ficará sozinha e tenho certeza de que não é isso que você quer. Então mude, por favor. Pela sua mãe, pela sua família, por você. Antes que seja tarde demais.

Harry deixou a sala em lágrimas, por assistir a mais uma decepção de quem ele esperava amadurecer. Aquelas palavras perfuravam o meu peito como uma faca. Tudo aquilo era verdade. Meu corpo estava rígido, sem reação. Infelizmente, eu tinha falhado. De novo.


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